A inteligência artificial (IA) tem sido apontada como a grande disruptora do mercado de trabalho global. No entanto, um levantamento recente revela que, por trás de muitos cortes de pessoal atribuídos à modernização tecnológica, esconde-se uma conveniente estratégia corporativa: usar a IA como uma espécie de “bode expiatório” para mascarar reestruturações internas e dificuldades financeiras.
De acordo com uma pesquisa conduzida pela plataforma Resume.org com mil gerentes de contratação, 59% das empresas admitiram que a justificativa de demissão baseada na adoção de novas tecnologias é muito mais bem recebida pelos funcionários e pela opinião pública do que a confissão de que a saúde financeira da instituição vai mal.
O abismo entre o discurso e a realidade estatística

O estudo aponta que a inteligência artificial foi citada como o principal motor de demissões em 44% dos casos registrados em 2026. Logo em seguida, aparecem a reestruturação organizacional (42%) e as restrições orçamentárias (39%).
Contudo, os cruzamentos de dados do próprio relatório indicam que a narrativa de substituição em massa da mão de obra humana por softwares inteligentes ainda carece de sustentação prática na economia real:
- Substituição mínima: Apenas 9% das empresas entrevistadas afirmaram que a IA é capaz de substituir completamente as atividades humanas no ambiente de trabalho atual.
- Impacto nulo: Pelo menos 45% dos gestores declararam que as ferramentas de automação tiveram pouco ou absolutamente nenhum impacto no número total de funcionários de suas organizações.
Mercado brasileiro: “Desculpa fantasiosa” e foco no comportamento
No cenário nacional, a dinâmica de usar a tecnologia como cortina de fumaça repete o padrão internacional. Segundo Lucas Oggiam, diretor-executivo da consultoria de RH Michael Page no Brasil, a imensa maioria dos postos de trabalho cortados no país não exigia um conhecimento aprofundado de IA, o que desidrata o argumento técnico das demissões.
Para o executivo, alegar que o funcionário foi trocado por uma máquina é, na maioria das vezes, uma “desculpa fantasiosa”. O corte por automação real só se prova plausível em nichos e áreas extremamente técnicas de tecnologia da informação. No dia a dia das corporações brasileiras, as demissões em massa continuam sendo motivadas por velhos conhecidos dos departamentos de recursos humanos.
Oggiam esclarece que o mercado tem facilidade em substituir o ser humano em atividades puramente transacionais e manuais. Todavia, em funções que exigem julgamento crítico, empatia e análise de contexto, o profissional humano continua insubstituível. O grande gargalo das empresas no Brasil, portanto, permanece atrelado aos fatores comportamentais e de atitude do colaborador, e não à sua substituição por algoritmos.
As habilidades mais valorizadas na hora de contratar
A prova de que o domínio de ferramentas de inteligência artificial ainda não é o fator soberano no mercado de trabalho está nos critérios de contratação. O estudo revelou que as competências humanas tradicionais (soft skills) superam de longe o conhecimento técnico em softwares automatizados na lista de prioridades dos recrutadores.
A tabela abaixo detalha quais são as habilidades mais valorizadas pelos gerentes de contratação atualmente:
| Posição no Ranking | Habilidade Profissional Valorizada | Percentual de Relevância no Estudo |
| 1º | Resolução de problemas complexos | 54% |
| 2º | Capacidade de aprender novas ferramentas rapidamente | 44% |
| 3º | Habilidades de comunicação interpessoal | 43% |
| 4º | Adaptabilidade frente a mudanças de cenário | 39% |
| 5º | Colaboração e espírito de trabalho em equipe | 36% |
A velocidade da transição e a desvantagem competitiva
Por outro lado, o avanço tecnológico impõe um ritmo de urgência inevitável. Ítalo Martins, diretor de Impacto e Inovação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), ressalta que a inteligência artificial está passando pelo mesmo processo de popularização que a internet viveu há algumas décadas. Trata-se de um recurso que se tornará mandatório na rotina operacional.
Sob a ótica da ABRH, embora haja um forte componente de pretexto nas demissões, a falta de familiaridade com os ecossistemas digitais de automação pode colocar o trabalhador em severa desvantagem competitiva no mercado. O grande desafio atual reside na velocidade da transição: o avanço das ferramentas acontece de forma tão abrupta que impede o tempo de maturação necessário para que a massa de profissionais e as próprias estruturas das empresas se adaptem organicamente às novas demandas de mercado.





