Uma pesquisa recente da Ipsos-Ipec, em parceria com o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), trouxe à tona um dado preocupante: um em cada cinco brasileiros afirma já ter recebido ofertas para vender seu voto. O levantamento revela que 22% da população já passou por essa situação em algum pleito. Além disso, a maioria dos entrevistados admite que não se sente segura para denunciar o crime ou simplesmente não sabe como fazê-lo.
O estudo aponta que a maior parte dessas tentativas ocorre durante as eleições municipais. Candidatos ao cargo de vereador lideram o ranking de abordagens ilícitas, sendo citados por 59% das pessoas que relataram o crime. Já os candidatos a prefeito aparecem em segundo lugar, com 43% das menções. Isso mostra que a pressão sobre o eleitor é significativamente mais forte nas disputas locais, onde o contato direto é maior.
Vereadores são os que mais tentam “comprar” o eleitor
A influência dos candidatos a vereador e seus cabos eleitorais é o ponto central das denúncias. Segundo a pesquisa, quanto menor a cidade, maior é a incidência de compra de votos. Isso acontece porque, em municípios pequenos, a dependência de empregos na prefeitura ou favores diretos acaba sendo usada como moeda de troca. Mesmo quem não foi abordado diretamente relata que a prática ocorre “sempre” ou “frequentemente” onde mora.
A região Nordeste registra o índice mais alto de tentativas de compra de voto no país. Segundo os dados, 32% dos entrevistados da região afirmaram ter recebido propostas ilícitas. Esse número está dez pontos percentuais acima da média nacional e é bem superior aos 18% registrados na região Sudeste. Especialistas apontam que a carência de serviços básicos e a vulnerabilidade econômica facilitam a ação de candidatos mal-intencionados.
Dinheiro não é a única moeda de troca

A pesquisa também alerta que a corrupção eleitoral vai muito além do dinheiro vivo. Embora a maioria das pessoas identifique o repasse de valores como crime, muitas ainda veem outras vantagens como um “favorzinho”. Ofertas de consultas médicas, facilitação em benefícios sociais, doação de cestas básicas e até a realização de churrascos e festas são estratégias usadas para coibir a liberdade do voto.
A socióloga Adelia Franceschini, consultora do levantamento, explica que cerca de 70% da população não entende essas trocas de favores como compra de voto. Essa percepção equivocada dificulta o combate à corrupção, pois o eleitor muitas vezes sente que está apenas recebendo uma ajuda necessária, sem perceber que está comprometendo a gestão pública dos anos seguintes.
Medo e falta de informação impedem denúncias
Apesar da gravidade dos relatos, o silêncio ainda predomina. Cerca de 62% dos brasileiros não sabem como denunciar o crime eleitoral e 52% afirmam não se sentir seguros para realizar a queixa. O medo de represálias em cidades pequenas é um dos fatores que mais pesam na decisão de não procurar as autoridades, mantendo o ciclo de impunidade ativo.
A Justiça Eleitoral reforça que a compra de votos, tecnicamente chamada de captação ilícita de sufrágio, pode levar a até quatro anos de prisão. Para facilitar as denúncias, foi criado o aplicativo Pardal, que permite o envio de provas de forma prática. Além do app, promotorias, delegacias e ouvidorias do Ministério Público estão preparadas para receber relatos e investigar as irregularidades.




