Embora o Brasil seja mundialmente conhecido por estar localizado no centro da Placa Tectônica Sul-Americana, uma posição geograficamente privilegiada que o blinda dos megaterremotos que devastam países como o Chile e o Japão, o território nacional não está totalmente imune a fenômenos da natureza. Recentemente, uma sequência de tremores de baixa intensidade registrados no Tocantins e no litoral do Rio de Janeiro acendeu o sinal de alerta e reacendeu o temor e a curiosidade da população sobre a atividade sísmica no país.
O que muitos brasileiros não sabem é que o maior e mais destrutivo tremor de terra com origem puramente nacional aconteceu no estado de Mato Grosso, na década de 1950. Diante dos episódios recentes, especialistas decidiram quebrar o silêncio para alertar que a possibilidade de um novo desastre de grande magnitude atingir o país é real.
O gigante adormecido dos anos 50

O evento histórico que detém o título de maior abalo sísmico do país ocorreu na madrugada do dia 31 de janeiro de 1955, na região da Serra do Tombador, em uma área geográfica que hoje pertence ao município de Juara (MT). O fenômeno registrou uma magnitude estimada em 6,2 e atingiu o grau VII na Escala Mercalli Modificada, um nível considerado forte e com alto potencial destrutivo.
Naquela época, a região norte de Mato Grosso era um vazio demográfico completamente isolado e desabitado, o que fez com que o tremor quase passasse despercebido pela grande mídia da época. O abalo só não caiu no esquecimento porque os seus reflexos viajaram por mais de 380 quilômetros através das rochas subterrâneas, fazendo com que prédios balancassem e objetos caíssem em Cuiabá.
Como o Brasil não possuía uma rede própria de estações sismológicas na década de 50, o desastre mato-grossense precisou ser detectado e catalogado por meio de equipamentos instalados no Chile.
Por que tremores recentes têm preocupado os cientistas?
A calmaria geológica que se seguiu nas décadas seguintes deu à população a falsa sensação de segurança de que o solo brasileiro é estático. Contudo, os abalos recentes registrados em solo fluminense e no Tocantins mostram que as falhas geológicas internas do país continuam ativas e acumulando energia mecânica.
Essa movimentação constante preocupa os pesquisadores por um motivo claro: o crescimento das cidades. Se o evento de 1955 ocorreu no meio da mata fechada sem causar vítimas, o cenário atual seria completamente diferente.
“Não é possível afirmar com certeza que um novo terremoto vá acontecer. No entanto, como já houve registros anteriores, existe a possibilidade de que novos abalos aconteçam sim”, adverte Lucas Barros, pesquisador do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB).
Para se ter uma dimensão do perigo, um terremoto de magnitude 6,2, exatamente igual ao de Mato Grosso, atingiu a cidade de Istambul, na Turquia, em abril de 2025. O tremor raso fez arranha-céus balançarem violentamente e deixou 151 pessoas feridas, a maioria devido ao pânico generalizado que levou moradores a saltarem de janelas e sacadas.
Os riscos e impactos de um novo abalo

Diferente do imaginário popular, os terremotos no Brasil não ocorrem pelo choque entre placas diferentes, mas sim por fraturas e acomodações internas da nossa própria placa (sismos intraplaca). O perigo reside no fato de que esses tremores costumam ser rasos, ocorrendo a cerca de 10 quilômetros de profundidade, o que potencializa a liberação de energia diretamente na superfície.
Se um tremor idêntico ao dos anos 50 ocorresse hoje na Zona Sísmica de Porto dos Gaúchos, região vizinha que mantém atividades recorrentes, os impactos no centro-norte de Mato Grosso seriam severos.
O sismólogo Bruno Collaço, da Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), mapeia os efeitos esperados de acordo com o raio de distância do epicentro:
| Raio de Impacto do Epicentro | Efeitos Esperados na Infraestrutura Atual | Nível de Risco |
| Até 20 ou 30 km | Intensidade VII na Escala Mercalli. Danos consideráveis em construções vulneráveis, quedas de muros velhos e destelhamentos. | Alto |
| Até 50 km | Surgimento de rachaduras estruturais em paredes de alvenaria e queda de objetos decorativos dentro das residências. | Médio |
| Cidades vizinhas | Interrupções pontuais em serviços básicos (redes de energia elétrica, abastecimento de água e sinal de internet). | Moderado |
O Acre e a confusão dos números

Durante debates na internet, muitos entusiastas mencionam que o Acre registrou terremotos maiores recentemente, como um abalo de magnitude 6,8 em Tarauacá no ano de 2019. No entanto, sismólogos explicam que esses eventos não entram na contagem de “terremotos genuinamente brasileiros”.
Os tremores do Acre ocorrem a profundidades gigantescas (frequentemente superiores a 600 quilômetros) e são reflexos diretos do esmagamento da Placa de Nazca sob a Cordilheira dos Andes. Por começarem muito fundo, eles perdem força antes de chegar ao topo e quase não causam danos. Já o histórico abalo de Mato Grosso nasceu e espalhou-se de forma rasa dentro das falhas da nossa própria crosta, mantendo-se firme como o verdadeiro teste de força da geologia nacional.





