O recente episódio envolvendo um modelo BYD Dolphin que pegou fogo no Rio Grande do Sul, o primeiro registro de incêndio em um veículo elétrico no Brasil, reacendeu o debate sobre a segurança dessa tecnologia. Embora vídeos com labaredas cinematográficas e fumaça densa gerem pânico e viralizem rapidamente, especialistas em engenharia automotiva e eletromobilidade trazem um diagnóstico claro: o problema real dos carros elétricos não é a frequência com que pegam fogo, mas sim a bateria de alta tensão quando o incêndio começa.
De acordo com peritos, os veículos elétricos são estatisticamente muito mais seguros e menos propensos a incêndios do que os modelos tradicionais a combustão. O desafio mora estritamente na forma como o fogo se comporta e na extrema dificuldade para extingui-lo de forma definitiva.
Frequência menor, complexidade maior

Para desmistificar a percepção de risco, engenheiros apoiam-se em dados consolidados pelo mercado internacional. A proporção de incidentes mostra que o motor a combustão, que carrega um tanque de combustível altamente inflamável, é muito mais vulnerável a falhas destrutivas.
A tabela abaixo compara a incidência de incêndios entre as duas tecnologias a cada 100 mil veículos em circulação:
| Tipo de Motorização | Incidência a cada 100 mil veículos | Dinâmica de Combate ao Fogo |
| Veículos a Combustão | ~1.500 casos | Controlado em poucos minutos com técnicas convencionais. |
| Veículos Elétricos (EVs) | 25 casos | Pode levar horas e exige monitoramento contra reignição. |
As três origens da “fuga térmica”
O processo de incêndio em uma bateria de alta tensão ocorre por um fenômeno químico chamado fuga térmica (quando uma célula superaquece e passa a transmitir calor em cadeia para as células vizinhas, gerando uma reação que se autoalimenta).
Os especialistas apontam três caminhos principais que ativam esse processo:
- Dano físico estrutural: Fortes colisões, deformações severas ou perfurações no assoalho do carro (onde a bateria fica instalada). Mesmo impactos que parecem pequenos visualmente podem comprometer os componentes internos.
- Erros no carregamento: Uso de instalações elétricas improvisadas, carregadores sem homologação ou fiação inadequada, gerando sobrecarga e picos de aquecimento durante a recarga.
- Degradação química ou falhas internas: Embora raros devido ao controle de qualidade, microcurtos internos gerados por defeitos de fabricação ou pelo desgaste natural das células de energia ao longo dos anos podem evoluir para um quadro de fogo.
Por que o combate ao fogo é um grande desafio?
O grande drama dos corpos de bombeiros ao lidar com o fogo em elétricos é o isolamento do componente. Como as baterias são blindadas, seladas e protegidas por estruturas rígidas, a água jogada externamente não consegue atingir o foco do calor com facilidade.
O risco da reignição: “Você apaga e ele pode voltar. O problema é resfriar a bateria por dentro”, alerta o engenheiro Eduardo Zambelli. Não basta eliminar as chamas visíveis na carroceria; se o conjunto interno não for resfriado por completo, a reação química continua ativa e o carro pode voltar a pegar fogo horas depois.
Na prática, isso exige uma logística de combate completamente diferente. Enquanto um carro convencional é apagado com algumas centenas de litros de água, conter a fuga térmica de um elétrico pode demandar milhares de litros de água, com estimativas que chegam a 40 mil litros em ocorrências mais complexas, além de uma vigilância estendida do veículo após o controle inicial.
Mitos e Sinais de Alerta: O carro avisa antes?

Os engenheiros descartam dois mitos comuns do mercado: o de que o calor intenso de países tropicais como o Brasil aumentaria o risco de fogo e o de que enchentes causariam curtos imediatos nas baterias. Os sistemas são perfeitamente vedados e projetados para operar sob condições climáticas extremas. O risco real, segundo o perito judicial Erbis Biscarri, mora nas intervenções fora do padrão, reparos mal executados pós-colisão e o uso incorreto de equipamentos.
A boa notícia é que a tecnologia atual conta com o BMS (Sistema de Gerenciamento de Bateria), um cérebro eletrônico que monitora a temperatura e a tensão de cada célula em tempo real. Se houver qualquer anormalidade, o próprio carro emite alertas no painel, limita a velocidade, reduz a potência do motor e até bloqueia o processo de carregamento de forma preventiva para proteger os ocupantes e evitar que uma falha simples evolua para um acidente grave.





