Islândia nunca teve Forças Armadas próprias e sempre confiou na OTAN e nos Estados Unidos, mas o segundo mandato de Trump e a pressão russa na Europa mudaram o cenário
A Islândia é um dos raros países que nunca tiveram exército. Desde que conquistou a independência da Dinamarca, em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, a pequena nação insular do Ártico confiou sua defesa aos aliados da OTAN e, principalmente, aos Estados Unidos. Mas os ventos geopolíticos mudaram, e os islandeses estão tendo que encarar uma discussão que não passava pela cabeça de ninguém há décadas enquanto o país precisa decidir quem garante a sua segurança.
Com cerca de 400 mil habitantes espalhados por 103 mil quilômetros quadrados de território, a Islândia tem a menor densidade populacional da Europa e boa parte do país é formada pelas Terras Altas, uma região inóspita de geleiras, campos de lava e vulcões onde praticamente ninguém mora. Para a maioria da população, a ideia de criar Forças Armadas convencionais nunca fez sentido, como mostra uma pesquisa do ano passado, onde 72% dos islandeses são contra ter um exército.
“Em nosso país, temos experiência com a presença de exércitos estrangeiros, mas não com o nosso próprio”, resumiu Pia Hansen, diretora do Instituto de Assuntos Internacionais da Universidade da Islândia, em entrevista à BBC.
Maria, uma jovem estudante de direito da Universidade da Islândia, deu uma resposta que ecoa o pensamento geral da população quando questionada pela reportagem. “Não faz sentido; não temos gente suficiente”, disse.
A sombra de Trump sobre o Ártico

Se a falta de um exército nunca tinha sido um problema real, o segundo mandato de Donald Trump na Casa Branca tratou de bagunçar essa certeza. O presidente americano passou a insistir que os Estados Unidos deveriam “possuir” a Groenlândia, vizinha da Islândia, e chegou a questionar publicamente o compromisso americano com a OTAN.
Em um discurso no Fórum de Davos, em janeiro, Trump soltou uma frase que caiu como uma bomba em Reykjavík. “Não sei se eles estariam lá por nós. Eles não estavam lá na Islândia, posso garantir. Quer dizer, nossa bolsa de valores despencou ontem por causa da Islândia. Então, a Islândia já nos custou muito dinheiro”, afirmou.
Um porta-voz da Casa Branca esclareceu depois que o presidente se referia à Groenlândia, mas o estrago já estava feito. Eirikur Bergmann, cientista político da Universidade de Bifröst, explicou o clima que tomou conta do país. “Os comentários de Trump deixaram muitas pessoas na Islândia sem palavras, embora eu acredite que todos entenderam que ele se referia à Groenlândia. No entanto, o tipo de agressão que o governo dos EUA iniciou para tomar a Groenlândia, às vezes em tom hostil, tem sido motivo de preocupação na Islândia, porque os argumentos sobre a necessidade dos EUA de adquirir a Groenlândia poderiam ser igualmente aplicados à Islândia”, disse.
A aposta na União Europeia

Diante desse novo tabuleiro, o governo da primeira-ministra Kristrún Frostadóttir resolveu se mexer. A principal cartada foi convocar um referendo para 29 de agosto, quando os islandeses vão decidir se o país deve reabrir as negociações de adesão à União Europeia, congeladas desde 2013.
A entrada no bloco europeu nunca foi um consenso na Islândia. A economia do país depende fortemente da pesca, e muitos temem que Bruxelas imponha cotas e regras que ameacem esse setor. Mas a equação mudou. Bergmann lembra que, embora a União Europeia não seja uma aliança militar clássica, “os seus tratados contêm cláusulas mais explícitas, mesmo sobre defesa mútua, do que a Carta do Atlântico da OTAN, o que convence muitos sobre a conveniência da adesão”.
Enquanto o debate se intensifica, os islandeses seguem depositando confiança em uma estrutura que já existe e funciona, a guarda costeira. Bem equipada e respeitada pela população, ela cuida do resgate marítimo, da vigilância das fronteiras e da administração da base aérea de Keflavik, de onde decolam os caças da OTAN para patrulhar os céus do país. Durante a Guerra Fria, essa mesma base foi um dos principais pontos de monitoramento dos submarinos soviéticos no Atlântico Norte. Hoje, recebe regularmente aeronaves de aliados como Estados Unidos e Noruega.
Com a segurança do país em xeque e um referendo no horizonte, a Islândia se vê obrigada a responder a uma questão que passou quase 80 anos adormecida. O “porta-aviões inafundável”, como Winston Churchill descreveu a ilha durante a Segunda Guerra, já não pode mais considerar sua defesa algo garantido.





