A recente aprovação na Câmara dos Deputados da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê a extinção da jornada de trabalho 6×1 e a redução da carga semanal de 44 para 40 horas continua gerando forte polarização no meio empresarial. Um dos posicionamentos mais contundentes partiu do empresário Luciano Hang, fundador e proprietário da rede de lojas Havan. Conhecido por sua forte atuação nos debates políticos nacionais, o bilionário projetou um cenário econômico caótico para o país caso o texto, que agora segue para avaliação do Senado Federal, venha a ser homologado em definitivo.
Em tom fortemente crítico, o empresário sinalizou que a alteração estrutural nas leis trabalhistas deve comprometer a saúde financeira do varejo e impactar diretamente o bolso do consumidor final.
A ironia da escala 4×3 e a projeção de “quebradeira”

Em entrevista, Hang utilizou o deboche para demonstrar sua insatisfação com o avanço da pauta legislativa defendida pelo governo federal. Ele afirmou de maneira irônica que, diante do cenário desenhado pelo Congresso, preferiria que os parlamentares adotassem imediatamente uma escala de quatro dias de trabalho por três de descanso (4×3).
“O Congresso deveria aprovar a 4×3 e implantá-la já em junho para que a gente visse quanto tempo o Brasil iria aguentar. Coisa ruim tem que ser o mais rápido possível, não adianta você ficar sofrendo por muito tempo”, ironizou o empresário. “Acho que para acertar este país é só com uma desgraça. Então, que a desgraça seja instalada o mais rápido possível.”
Para além da provocação política, o empresário apresentou projeções matemáticas sobre o impacto da medida dentro de suas próprias operações. Segundo seus cálculos, a redução da jornada sem redução de salários deve provocar um aumento imediato entre 15% e 20% nos custos operacionais das empresas de comércio, indústria e serviços.
Hang argumenta que os grandes conglomerados possuem estrutura para absorver parte do baque, mas prevê uma “quebradeira” em massa de micro, pequenas e médias empresas do setor varejista por todo o território nacional. Segundo ele, esses custos extras serão inevitavelmente repassados aos preços das mercadorias, alimentando uma nova espiral de inflação que acabará corroendo o poder de compra do próprio trabalhador.
Divergência setorial e críticas às regras de gênero na CLT
A ofensiva de Hang contra a legislação trabalhista brasileira estendeu-se também a artigos históricos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com destaque para o Artigo 386. O dispositivo assegura às mulheres que trabalham no comércio o direito a pelo menos uma folga dominical a cada 15 dias, uma regra criada para atenuar o desgaste da jornada dupla (trabalho e cuidados domésticos) e que foi chancelada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) após tentativas de flexibilização na reforma trabalhista.
Segundo o dono da Havan, o excesso de protecionismo legal acaba produzindo o efeito oposto e prejudicando a empregabilidade:
- A visão de Hang: Ele argumenta que restrições logísticas de escalas de domingo forçam empresas com múltiplos turnos a priorizarem a contratação de homens para evitar gargalos operacionais.
- O contraponto dos sindicatos: Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), classificou o argumento como “pequeno”. Para o líder sindical, o comércio depende crucialmente da mão de obra feminina em funções estratégicas (como caixas e atendimento) e o fim da escala 6×1 não mudará essa realidade de mercado.
- A visão institucional: A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) também se posicionou de forma mais moderada, apontando que o verdadeiro desafio da PEC não envolve questões de gênero, mas sim a enorme complexidade técnica de rearranjar os variados modelos de escalas vigentes (1×1, 2×1, 2×2) negociados em acordos coletivos.
Faturamento bilionário e o radar voltado para o Paraguai
Apesar das críticas severas ao ambiente de negócios no Brasil, a Havan vive um momento de forte expansão financeira. O grupo caminha para encerrar o período com números expressivos em seus relatórios de desempenho corporativo:
| Indicador Corporativo | Desempenho Registrado | Projeção / Próximos Passos |
| Infraestrutura de Lojas | 191 unidades físicas em operação. | Inauguração da 192ª loja em Taquara (RS); meta de passar de 200 filiais. |
| Quadro de Colaboradores | Mais de 25 mil funcionários ativos. | Manutenção e contratação para suporte aos novos pontos de venda. |
| Receita Líquida (Anual) | R$ 13,7 bilhões garantidos no último balanço. | Expectativa de atingir R$ 22 bilhões em faturamento bruto. |
| Lucro Líquido (Anual) | R$ 3,5 bilhões injetados no caixa da empresa. | Margem robusta de lucratividade mantida ao longo do ano. |
Como estratégia de proteção cambial e fuga da alta carga tributária nacional, Hang confirmou que viaja nas próximas semanas ao Paraguai para se reunir com o presidente Santiago Peña. O objetivo central é analisar os benefícios fiscais e os menores encargos trabalhistas oferecidos pela Lei de Maquila paraguaia, um modelo de incentivo que já atraiu grandes indústrias têxteis brasileiras. “Eu não posso ser o último empresário a apagar a luz. Meus fornecedores já estão lá”, ponderou.
Recuo estratégico nos palcos políticos
Por fim, o empresário catarinense sinalizou uma mudança de postura em relação ao seu ativismo eleitoral. Um dos rostos mais visíveis do apoio financeiro e político a Jair Bolsonaro em pleitos anteriores, Hang afirmou que pretende adotar uma postura muito mais comedida e discreta nas próximas campanhas.
O empresário, que hoje tem 63 anos, justificou o afastamento alegando cansaço físico e foco total na gestão de sua rede de lojas. Vale lembrar que o recuo também ocorre no rastro de pressões jurídicas: a empresa foi condenada em uma ação movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) ao pagamento de uma multa de R$ 85 milhões, sob a acusação de interferência e coerção no voto de seus colaboradores durante disputas eleitorais passadas.





