A trajetória de Wallace William da Costa, de 44 anos, é daqueles enredos reais que desafiam estatísticas e quebram barreiras estruturais profundamente enraizadas na sociedade. Preso na juventude, ele transformou o período de reclusão em solo para novos começos e hoje vive a contagem regressiva para uma conquista dupla. Atualmente cursando o 8º período de Medicina na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), em Araguaína, ele foi aprovado em um concurso público e aguarda apenas a colação de grau para assumir o cargo de médico em Minas Gerais, consolidando uma incrível trajetória de ressocialização pelo estudo.
O estudante, que cumpre a fase de internato, planeja retornar ao seu estado natal assim que receber o diploma para se reencontrar com a família e assumir sua vaga definitiva no funcionalismo público de saúde.

A virada de chave atrás das grades e a rotina de aprovações
A história de Wallace com o sistema prisional começou em 1997, quando ele foi preso aos 18 anos por tráfico de drogas e condenado a seis anos de reclusão. Ele cumpriu quatro anos em regime fechado na Penitenciária José Edson Cavalieri, em Juiz de Fora (MG), e foi justamente na cela que uma reflexão solitária mudou seus planos de vida de forma definitiva.
“Olhei pelas grades e vi uma lua linda, e percebi naquele momento que aquilo não estava me fazendo bem. Na semana seguinte comecei a estudar na penitenciária. Cumpri 4 anos fechado e 2 em condicional, durante a condicional fiz o curso de enfermagem e comecei a trabalhar”, recorda Wallace.
Decidido a se afastar do crime, ele utilizou a enfermagem como trampolim. Ao longo dos anos, enfrentando a desconfiança e o estigma, Wallace transformou o estudo em hábito e construiu um currículo invejável de aprovações em certames disputados por todo o país, provando que a segurança pública e a educação devem caminhar juntas.
O histórico de aprovações de Wallace
| Instituição / Órgão | Modalidade do Vínculo | Status da Oportunidade |
| Hospital Federal (RJ) | Processo Seletivo Temporário | Aprovado e convocado. |
| Hospital Federal (RJ) | Concurso Público Efetivo | Aprovado (vaga assumida). |
| Fiocruz | Concurso Público Efetivo | Aprovado. |
| Petrobras | Concurso Público Efetivo | Aprovado (vaga assumida até 2016). |
| Prefeitura Municipal (MG) | Concurso Público Efetivo (Médico) | Aprovado no 7º período da faculdade (aguardando posse). |
Nota: Ao todo, Wallace acumulou nove aprovações em concursos públicos. Ele atuou ativamente na área da saúde até 2016, quando precisou passar por uma cirurgia complexa na coluna e acabou aposentado por invalidez. Longe dos hospitais durante a pandemia, ele percebeu que era hora de reativar um sonho antigo: cursar medicina.
O peso do estigma no ambiente universitário
Apesar do sucesso inquestionável nas provas, o caminho dentro dos pavilhões acadêmicos não tem sido fácil. Wallace relata que o preconceito por seu passado ainda se faz presente no cotidiano da faculdade no Tocantins. “Infelizmente ainda há alguns preconceitos, inclusive sofro com eles até aqui na própria universidade, de que esse não é o perfil de aluno que a universidade quer”, lamenta o estudante.
Especialistas explicam que essa rejeição velada é um reflexo do comportamento punitivista da sociedade, que tende a ignorar os mecanismos legais de reabilitação. Segundo o doutor em Psicologia Social, Ladislau Ribeiro do Nascimento, o sistema carcerário impõe uma perda de identidade tão severa que o indivíduo carrega o estigma mesmo após pagar sua dívida com a justiça.
O professor reforça que a sociedade civil costuma negar o direito de recomeço, ignorando que o egresso necessita de novas redes de apoio baseadas na confiança. Juristas lembram ainda que a Lei de Execução Penal (LEP) e projetos nacionais, como o “Começar de Novo”, existem justamente para garantir proteção jurídica, qualificação e inserção produtiva dessas pessoas no mercado de trabalho.
O retorno para casa e a mensagem para o futuro

Casado e pai de quatro filhas que ficaram em Minas Gerais aguardando o fim da sua graduação, Wallace enxerga sua jornada como um espelho para quem se encontra sem perspectivas em celas espalhadas pelo Brasil. Para ele, expor o próprio passado e lidar com os julgamentos atuais é um preço pequeno a se pagar se o seu exemplo servir para abrir horizontes.
“Minha história vem com o intuito de mostrar que as pessoas podem mudar e ter uma vida diferente. A educação muda qualquer um. Quando decidi deixar as pessoas saberem da minha história, sabia que teria muita crítica, mas se essa história tocasse uma pessoa, para mim já valeria a pena”, finaliza o futuro médico.





