O debate nacional sobre o fim da escala de trabalho 6×1 ganhou um desdobramento polêmico que promete mexer direto com o bolso e com os planos de viagem dos brasileiros. A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) acendeu um sinal de alerta e afirmou que a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que altera a jornada de trabalho pode comprometer seriamente a oferta de voos internacionais no país.
De acordo com o setor, a mudança vai encarecer a operação das companhias nacionais e reduzir drasticamente a capacidade delas de competir de igual para igual com as gigantes estrangeiras.
A perda de competitividade no céu global

O alerta foi feito pelo diretor-presidente da Abear, Juliano Noman, durante um pronunciamento em Brasília nesta terça-feira, dia 26 de maio. O executivo explicou que a aviação comercial é um setor que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, exigindo uma engenharia complexa para coordenar turnos de tripulantes, equipes de solo, manutenção e atendimento nos aeroportos.
Com o fim do modelo atual de escala, as empresas brasileiras argumentam que enfrentarão dificuldades estruturais:
- Aumento imediato de custos: Para cobrir as folgas adicionais e manter os aviões voando sem parar, as empresas precisarão contratar mais pessoal técnico e de atendimento.
- Vantagem para as estrangeiras: Companhias aéreas de outros países, que operam rotas para o Brasil, respondem às legislações de suas sedes e não serão afetadas pela nova regra brasileira.
- Corte de rotas menos lucrativas: Como os voos internacionais possuem custos altos e margens de lucro apertadas, as empresas nacionais podem ser forçadas a cancelar destinos fora do país para focar apenas nas rotas domésticas mais rentáveis.
O efeito cascata: como a mudança atinge as companhias
A preocupação das empresas do setor aéreo segue uma linha de impacto que vai desde a aprovação da lei até o pátio dos aeroportos.
- 1.Tramitação da PEC em Brasília: A proposta que extingue a jornada de seis dias de trabalho por um de descanso avança nas comissões do Congresso Nacional.
- 2.Reorganização dos turnos 24 horas: Os departamentos de recursos humanos das companhias precisam refazer toda a escala de pilotos, comissários e mecânicos para cobrir as novas folgas.
- 3.Subida nos custos operacionais: A necessidade de novas contratações inflaciona a folha de pagamento e o custo por hora de voo das empresas nacionais.
- 4.Redução da malha internacional: Para equilibrar as contas, as companhias brasileiras começam a abrir mão de voos para o exterior, deixando o mercado livre para as concorrentes de fora.
Comparativo de bastidores: o peso das novas regras
Para entender de forma direta como o setor aéreo enxerga o impacto das mudanças propostas na jornada de trabalho:
| Fatores em jogo na operação | Como funciona no modelo atual | O que muda com o fim da 6×1 |
| Escala de funcionários | Permite escalas contínuas para cobrir pousos e decolagens de madrugada. | Exigirá mais equipes de revezamento para manter aeroportos funcionando. |
| Disputa com empresas de fora | Companhias brasileiras competem com custos parecidos de tripulação. | Empresas estrangeiras passam a ter um custo operacional muito menor no Brasil. |
| Preço das passagens | Valores flutuam com base no preço do combustível e na demanda. | Tendência de alta devido ao repasse dos novos custos de contratação. |
| Oferta de destinos | Empresas brasileiras mantêm rotas para a América do Sul, EUA e Europa. | Risco de concentração de voos apenas nos trechos internos do Brasil. |
O que está em jogo para os passageiros?

A grande preocupação do mercado é que o encolhimento das companhias brasileiras nas rotas internacionais crie um monopólio das empresas estrangeiras nos voos que saem do Brasil. Sem a concorrência de marcas nacionais, os preços das passagens aéreas para o exterior podem subir significativamente, tornando as viagens internacionais ainda mais difíceis para a classe média.
A Abear defende que o setor precisa de um olhar diferenciado na regulamentação devido à natureza essencial e globalizada do transporte aéreo. O debate sobre a PEC segue quente em Brasília, dividindo opiniões entre os defensores dos direitos trabalhistas e os representantes da indústria, que alertam para o risco de o Brasil se isolar das principais rotas aéreas do mundo caso o texto seja aprovado sem ajustes para os setores de alta complexidade.





