O mercado de colecionáveis no Brasil e no mundo está prestes a passar por uma de suas maiores transformações históricas. A editora italiana Panini deixará de produzir o tradicional álbum de figurinhas da Copa do Mundo, encerrando uma parceria de sucesso que já dura mais de 60 anos com a FIFA. A mudança acontecerá de forma definitiva a partir de 2031, quando os direitos de licenciamento do torneio de seleções migrarão para as mãos da concorrente Fanatics, que passará a fabricar os cromos oficiais por meio de sua marca, a Topps.
Longe de demonstrar abatimento com o fim do ciclo esportivo, a alta cúpula da editora no Brasil revelou que o foco da companhia já está direcionado para a diversificação de portfólio para manter a liderança no setor de entretenimento.
Uma decisão de terceiros e a força do portfólio atual
Em entrevista exclusiva à Bloomberg Línea, o CEO da Panini no Brasil, Raúl Vallecillo, fez questão de esclarecer os bastidores comerciais que selaram o destino das coleções de futebol. O executivo chileno enfatizou que o término do contrato decorre exclusivamente de uma escolha estratégica da FIFA, e não de uma fragilidade da editora italiana. Vallecillo ponderou que, embora o futebol carregue um forte apelo emocional, o nível atual de diversificação da empresa garante estabilidade financeira para os próximos anos.
Atualmente, o faturamento da marca no país está sustentado por pilares fortes do entretenimento que vão muito além dos gramados:
- Cultura Pop Japonesa: Uma linha robusta de mangás que atrai mensalmente milhares de jovens leitores às bancas.
- Universo dos Quadrinhos: Licenças exclusivas para a publicação de HQs das maiores franquias de super-heróis do mundo.
- Álbuns Diversificados: Criação de livros ilustrados temáticos focados em desenhos animados, séries de televisão e cultura geek.
O planejamento logístico de três anos nos bastidores
O mercado brasileiro figura entre os cinco mais importantes do planeta para a matriz na Itália, exigindo uma operação industrial complexa.
- 1.Planejamento com 3 anos de antecedência: Estratégia.
- Cada nova edição do álbum passa por um ciclo de três anos de gestação nas áreas operacional, comercial e editorial antes de chegar às mãos do público.
- 2.Abastecimento de 80% do continente: Fábrica no Brasil.
- A planta industrial instalada no Brasil opera 24 horas por dia para produzir e distribuir as figurinhas para quase toda a América Central e do Sul.
- 3.Atração de novos perfis de clientes: Público Alvo.
- A atual edição de 2026 registra um aumento expressivo nas vendas impulsionado pela entrada em massa do público feminino no colecionismo.
- 4.Entrega do último álbum contratual: Encerramento.
- A editora cumprirá o seu contrato vigente com a FIFA até o fim, garantindo o lançamento do seu último álbum histórico na Copa do Mundo de 2030.
Custos de produção elevados e o mercado da pirataria

A atual edição de 2026 entrou para a história como a maior coleção já impressa pela marca, mas trouxe desafios econômicos severos para a diretoria.
| Desafios Operacionais da Temporada | Impacto no Preço Final | Soluções Oficiais para o Cliente |
| Aumento no tamanho do álbum para 980 figurinhas devido ao novo formato do torneio. | A inflação global pós-pandemia elevou o preço das matérias-primas internacionais. | Serviço de “últimas figurinhas” permite comprar cromos raros pelo preço comum. |
| Logística pesada para importar papel de alta qualidade do Canadá e da Espanha. | A empresa absorveu parte dos custos para não repassar o reajuste total ao leitor. | Venda de um kit extra com jogadores que ficaram de fora dos envelopes iniciais. |
| Gráficas clandestinas espalhadas por São Paulo alimentam o mercado pirata. | Executivos minimizam a pirataria, classificando o impacto como insignificante. | Sistemas de placas aleatórias na fábrica buscam reduzir as repetidas nas caixas. |
O fenômeno social que atravessa gerações

Mesmo com a contagem regressiva para a entrega das chaves da Copa do Mundo, os números do presente mostram que o produto continua no auge de sua relevância comercial. As parciais de vendas da edição de 2026 na América Latina registraram um crescimento de 24% em comparação com o Mundial do Catar em 2022, puxadas pelo desempenho comercial acima da média em países como Brasil, Argentina, Colômbia e Chile.
Para Raúl Vallecillo, o grande legado que a empresa deixa nesses mais de 50 anos de história com o futebol é o fortalecimento do colecionismo como uma ferramenta de interação social e afetiva. Independentemente dos logotipos que estarão estampados nas capas das coleções após 2030, a marca italiana planeja continuar avançando com novas coleções criativas, apostando na memória afetiva de pais e filhos que aprenderam a se reunir ao redor de uma mesa para abrir pacotinhos e negociar os últimos cromos de suas coleções favoritas.





