
O arroz vive um dos momentos mais críticos da história recente do agronegócio gaúcho. Em meio à pior crise já enfrentada pelo setor, produtores têm visto o preço pago pela saca despencar para menos de R$ 60,00 o arroz tipo 1 (58% de grãos inteiros), enquanto os custos de produção permanecem em alta. Diferente das culturas de sequeiro, onde a estiagem afeta diretamente a colheita, o drama dos arrozeiros vem de outra frente: excesso de oferta e concorrência desleal de países do Mercosul.
Em Cachoeira do Sul, um dos polos da rizicultura do Rio Grande do Sul, o produtor e vice-presidente da União Central de Rizicultores (UCR), Pinto Kochenborger, concluiu o plantio da safra 2025/2026 no último dia 16 com uma constatação preocupante. Segundo ele, plantar arroz neste cenário “é só para se endividar”. O custo médio por hectare chega a R$ 15 mil, e a falta de crédito agrícola tem levado muitos produtores a vender parte da produção antecipadamente, apenas para conseguir fazer caixa e, assim, manter a próxima lavoura de pé.
Para Kochenborger, a recente decisão do governo federal, por meio da Conab, de movimentar 630 mil toneladas de arroz da safra 2024/25 — usando mecanismos de compra e subvenção — pode ter o efeito contrário ao desejado. “É um tiro no pé dos produtores”, afirma o arrozeiro. A medida, que pretende equilibrar preços e garantir renda ao campo, segundo ele, acaba interferindo no mercado e impedindo a recuperação do valor pago ao produtor.
A seguir, Kochenborger detalha suas percepções sobre a crise e os riscos que, segundo ele, ameaçam a continuidade da lavoura arrozeira no Rio Grande do Sul.

Fala, Pinto Kochenborger, vice-presidente da UCR
Como o senhor avalia o atual momento vivido pelo setor arrozeiro no Estado?
O arroz está numa das maiores e piores crises da história. E o problema não é falta de produção — como acontece com outras culturas afetadas pela seca —, mas justamente o contrário: plantamos e colhemos demais. A isso se soma a concorrência desleal com o arroz do Mercosul, o que tem derrubado o preço interno e inviabilizado o produtor.
O que tem agravado essa situação?
A crise vem se aprofundando com a ajuda dos nossos próprios governos. Hoje não há crédito disponível nas agências bancárias, o que obriga o produtor a vender mais arroz no mercado, muitas vezes abaixo do preço mínimo, para conseguir tocar o preparo da próxima safra. Essa descapitalização generalizada está levando muitos produtores ao limite.
Como o senhor avalia a compra de arroz anunciada pela Conab?
Vejo isso como um tiro no pé dos produtores. Toda vez que o preço começa a reagir e se aproxima do custo de produção, o governo anuncia leilões com valores inferiores, e o mercado cai novamente. Agora, com o governo detendo grandes estoques, a tendência é que o preço pago ao produtor continue estagnado, sem chances reais de recuperação.
O produtor tem conseguido acessar crédito para financiar a lavoura?
Muito dificilmente. Para obter financiamento, o agricultor precisa empenhorar o pouco patrimônio que ainda tem, via penhor fiduciário — um mecanismo extremamente grave. Se a conta não for paga no vencimento, em poucos dias o bem passa a ser propriedade do agente financiador. Isso está quebrando o campo silenciosamente.
O senhor acredita que o cultivo do arroz corre risco de desaparecer no Estado?
Infelizmente, sim. Se não houver uma redução drástica no plantio da próxima safra, corremos o risco de ver o fim da lavoura arrozeira no próximo ano. Produzir nas condições atuais é sinônimo de endividamento. O agro, para continuar existindo, precisa de uma reestruturação profunda — dentro e fora da porteira. Caso contrário, as recuperações judiciais vão aumentar ainda mais.