
Em artigo publicado no Jornal do Comércio, de Porto Alegre, o economista Michael França faz um alerta sobre algo que a sociedade moderna insiste em ignorar: o impacto das crescentes exigências econômicas e sociais sobre o equilíbrio emocional das pessoas.
Vivemos em um tempo em que a produtividade se tornou um mandamento. Trabalhar mais, render mais, produzir mais — e quem não acompanha esse ritmo é visto como fraco ou preguiçoso. O problema é que nem todos partem do mesmo ponto. França lembra que quem nasce com menos recursos enfrenta uma dificuldade muito maior para preservar a saúde mental. Enquanto alguns podem recorrer a terapia, tratamentos e pausas necessárias, outros precisam continuar trabalhando, mesmo doentes.
A dor, quando não encontra abrigo, transforma-se em isolamento. E esse isolamento, por sua vez, aprofunda o sofrimento. É um ciclo cruel que atinge em cheio as camadas mais pobres, para quem cuidar da saúde mental é um luxo. O texto questiona se remédios e terapias individuais são suficientes ou se o problema é, na verdade, coletivo, fruto de uma sociedade que valoriza o desempenho acima do bem-estar e o sucesso acima da saúde mental.
O articulista propõe uma reflexão sobre o que chamamos de riqueza. Será que ser rico é acumular bens, ou é ter tempo, calma e saúde para viver com dignidade? Talvez o maior desafio contemporâneo seja reconhecer que o adoecimento mental não é uma fraqueza individual, mas uma consequência de um modo de vida que perdeu a medida.
Segundo o psicanalista francês Christophe Dejours, um dos maiores estudiosos da relação entre trabalho e sofrimento psíquico, o modelo econômico centrado na competição e na eficiência a qualquer custo, gera uma forma silenciosa de violência mental. O trabalho, que deveria ser uma fonte de realização, transformou-se em um campo de provas no qual o indivíduo precisa constantemente comprovar seu valor, o que o leva à culpa, à ansiedade e à exaustão emocional.
A pressão por resultados desumaniza as relações e impede a construção de um sentido coletivo no trabalho, rompendo laços de solidariedade e deixando o indivíduo entregue à solidão e ao medo do fracasso.