
O ciclo agrícola 2025/2026 inicia-se no Rio Grande do Sul sob um duplo vetor de incertezas: o comportamento climático e a lenta recomposição econômica após sucessivas perdas. As primeiras semanas de outubro confirmam o diagnóstico. As chuvas irregulares retardaram o plantio da soja em boa parte das regiões, enquanto o trigo, em fase de colheita, corre o risco de ter sua qualidade comprometida pelo excesso de umidade, repetindo o padrão de instabilidade observado nos últimos quatro anos.
Em entrevista concedida ao programa Vale Informação (Rádio Vale FM 99.1, das 7h às 9h), o futuro presidente da Farsul, Domingos Velho Lopes, sintetizou com precisão o sentimento predominante no campo: “Entramos em 2026 com mais riscos e margens cada vez mais estreitas.” A afirmação encontra respaldo nos números. Os custos de produção seguem elevados, pressionados por insumos e maquinário dolarizados, enquanto as cotações internacionais da soja e do milho recuaram. O resultado é um setor que opera no limite, com mínima capacidade de absorver novos choques de preço ou de clima.
A análise de Domingos Velho evidencia uma vulnerabilidade que vai além do clima: trata-se também de uma fragilidade institucional. Faltam instrumentos permanentes de política agrícola capazes de oferecer previsibilidade e segurança a médio e longo prazo. O crédito rural, ainda que subsidiado, não cobre integralmente os custos operacionais. O seguro agrícola permanece restrito, alcançando uma fração reduzida das lavouras, e a infraestrutura logística continua sendo um gargalo que encarece o escoamento e reduz a competitividade.
Outro ponto de destaque na entrevista foi o alerta sobre a sucessão rural. A dificuldade de manter os jovens no campo é sintoma de esgotamento do modelo atual. Sem perspectivas de renda estável e segurança econômica, o meio rural envelhece, e o fluxo de conhecimento entre gerações se interrompe com graves consequências estruturais.
Em síntese, o agronegócio gaúcho conserva elevada competência técnica e produtiva, porém se vê submetido a um contexto que combina instabilidade meteorológica e compressão econômica. O produtor, diante disso, segue trabalhando menos pela expectativa do lucro e mais pelo esforço de evitar prejuízos.
Sem uma política agrícola estável, com crédito previsível, seguro abrangente e infraestrutura eficiente, o Rio Grande do Sul continuará tendo um agro que produz muito, com pouco retorno econômico.