Vacina contra Covid: esquema promete laudos falsos para cachoeirenses

Por 16 de junho de 2021

A reportagem do Portal OCorreio investigou um esquema de venda de laudos médicos falsos que simulam atestarem comorbidades de seus clientes. O objetivo é burlar o sistema de vacinação contra a Covid. Durante as conversas com quem acredita ser o próximo comprador, uma negociadora cita Cachoeira do Sul na lista de clientela já atendida. Além disso, o registro de um médico com consultório na cidade também seria utilizado pelo bando – que tem base em São Paulo.

Cada laudo custa R$ 250, mas com possibilidade de desconto caso o pacote seja para mais pedidos.

O diálogo entre a reportagem e a negociadora ocorreu via aplicativo de mensagens. Acompanhe trechos:


OC – Estou apavorado c Covid. Muitos amigos também. Quero antecipar p mim. Será q consigo atestado p comorbidade q precisa p me vacinar? problema q moro no RS… Podem me ajudar?

Negociadora: Consegue sim. Laudos autenticos, fornecidos por médicos especialistas, tendo assinatura e o carimbo do responsável.

OC – Qnt vc me sugere pagar para mostrar qnd for me vacinar?

Negociadora – Quando for vacinar eles vão te pedir o laudo médico pelo qual está vacinando antecipado. Nós conseguimos fazer o laudo sim, o Sr só precisa me encaminhar qual o motivo que deseja


Na sequência, a reportagem questiona sobre a distância entre os responsáveis pelo golpe e quem a mulher acredita ser o próximo cliente do esquema. Confira:


OC – Mas estou no rio grande do sul. Vi agora q vcs são de SP. Será q n vão desconfiar??

Negociadora – Nós colocamos o laudo de acordo com a sua cidade, não tem problema

OC – Já fizeram p RS antes? Pq eu falo de Cachoeira do Sul-RS

Negociadora – Já fizemos sim pode ficar tranquilo, após confirmação de pagamento nos encaminhamos por e-mail em forma de Pdf (arquivo de documento). E via Sedex também


A negociação passa a envolver valores:


OC – Qnt fica?

Negociadora – Laudo médico pra vacina de COVID é R$ 250,00

OC – E isso me dá direito ao q?

Negociadora – Direito a vacina da primeira e segunda dose somente com esse laudo

OC – ótimo.


A reportagem finge interesse em ampliar a fraude com a compra de documentos falsos ainda para a família e funcionários de uma suposta loja em Cachoeira do Sul que o cliente do golpe seria proprietários em Cachoeira do Sul. Confira:


OC – deixa eu aproveitar: consigo comprar por aqui p família e funcionários de minha loja tb?

Negociadora – Consegue sim me encaminhando os dados de cada pessoa

OC – e pode ser por aqui mesmo?

Negociadora – Pode sim. Dependendo da quantidade nos (“nós”) damos desconto

OC – ah, iria perguntar isso agora. a loja n é grande. tenho sete funcionários. mas já perdi dois afastados por causa dessa maldita doença. os demais n estão vacinados. e pelo visto, vai demorar se vcs n me ajudarem. sobre família, só minha sogra está vacinada. quero p mim e minha esposa. ou seja, nove pessoas ao todo

Negociadora – Entendi, só um momento que estou verificando com o nosso financeiro sobre o desconto

OC – obrigado


Cerca de dois minutos depois, a mulher retoma contato:


Negociadora – Eu consegui pro Sr por 1300 todos os 9

OC – ah, ótimo. se eu pagar hj ainda, qnd recebo?

Negociadora – Após confirmação de pagamento nos encaminhamos (“nós”) por e-mail em formato Pdf, e via Sedex de 3 a 4 dias úteis


Em seguida, a reportagem pergunta sobre a segurança da fraude. Nesse momento, a negociadora cita Cachoeira do Sul:


OC – de certa forma, vou colocar meu nome em risco… o q vcs fazem é só pela impressora ou tem algo com o sistema mesmo q ajuda em n duvidarem de mim aqui na cidade?

Negociadora – Até hoje não tivemos problemas, todos com laudos conseguiram tomar (?) tranquilamente, nós temos um sistema próprio, nosso laudo e (“e”) em papel timbrado com carimbo e assinatura médica tudo certinho não tem erro algum, é emitido de acordo com a sua cidade também.

OC – desculpa perguntar tanto.n duvido da competência de vcs. mas é q nunca fiz isso antes. sera q se pesquisarem esse médico eu n vou ter problemas? penso ate em dar cadeia sabe

Negociadora – Não tem problema não, o CRM do médico vai de acordo com a sua cidade também já pra não ter erro, entendo as dúvidas pode ficar tranquilo

OC – desculpa ser tao leigo, mas como assim o CRM conforme minha cidade? Cachoeira do Sul?

Negociadora – O CRM significa Conselho Regional da Medicina. Os nossos médicos todos tem o CRM ativo, ou seja, todos são reais por esse motivo não temos problema

OC – mas bate com Cachoeira do Sul?

Negociadora – Bate sim. Em questão de ser da sua cidade e por que o carimbo e a assinatura do médico vão está (“estar”) cadastrado pela sua cidade entendeu

OC – ah, acho q entendi…


A negociação avança com um pedido de exemplo sobre o documento que seria encaminhado:


OC – vc tem algum exemplo p eu ver? minha esposa está aqui comigo

Negociadora – Temos sim

OC – ah, maravilha


Em menos de dois minutos, a negociadora do esquema compartilha o modelo que seria usado para a confecção do documento fraudulento que atestaria falsamente comorbidades ao cliente do golpe, visando a antecipação de sua vacinação contra a Covid:


Crédito: Reprodução/OC

Negociadora – Esse é um modelo de um cliente nosso, o do senhor ainda vai ser criado entendeu por isso precisamos dos dados certinhos para emissão

OC – e quais comorbidades vc me sugere p nossos atestados? são nove (supostos clientes)… se forem iguais…talvez dê na vista

Negociadora – Podemos colocar doenças cardíacas, obesidade, doenças congênitas, deficiência em algum órgão. vamos criar vários modelos pra não ser igual

OC – daí é só mostrarmos na fila e tomaremos finalmente a vacina

Negociadora – Sim, eles pedem documento, comprovante de endereço e o laudo médico


Conforme a negociadora do grupo responsável pela fraude, o esquema está ativo desde 2015. Ao comentar mais uma vez sobre Cachoeira do Sul, a mulher assegura que já comercializou dois laudos falsos para clientes na cidade:


OC – p cachoeira do sul, aposto q sou o primeiro cliente…kkk….

Negociadora – Acredita que não? kk, já tivemos outros

OC – da minha cidade? bain…kkk .. mas n de covid, ne?kkk

Negociadora – 2 foram de COVID


Uma das pontas que garante o esquema, segundo a negociadora destaca, seria a participação de médicos:


OC – já q tem médico envolvido… eles ficam c uma parte e de boca fechada espero

Negociadora – Sim sim claro

OC – o CRM do medico q vai nos assinar os laudos está ativo, será?

Negociadora – Está sim, ele é médico nosso mesmo atende em consultório

OC – ah, ufa. minha mulher perguntou agora. ta mais medrosa q eu…kkk. desde q ano, sabe?

Negociadora – Tem 6 anos que ele atende na sua cidade porém de profissão são 23

OC – de cachoeira do sul? ah, entao ta mais fácil. q bom saber. cidade pequena…capaz de eu conhecer quem é. ele tá sabendo, ne?

Negociadora – Ele só emiti (“emite”) os laudos não sabe quem são os pacientes, nós só passamos os dados para ele incluir


A integrante do golpe ainda tenta justificar a procura pelos documentos falsos que vende:


Negociadora: Nós vendemos muitos laudos pra vacina, acho que vai da necessidade de cada pessoa pois não estamos em um momento bom e ainda aguarda tanto pra tomar

OC – mas legal n é, ne?kkk… sabemos disso… se a polícia nunca incomodou vcs nesse tempo todo, sinal q é bem feito

Negociadora – Tentamos o máximo, fazer tudo com muita qualidade

OC – vcs n tem cnpj ne…nem pode..é na base da confiança acredito

Negociadora – Temos não, não podemos né

OC – melhor..mais segura…se rastrear, chega nos clientes…tá louco

Negociadora – Isso mesmo


Clientes satisfeitos

As conversas chegam a contar com indicações de supostos clientes da fraude. “Adquiri e recebi dentro do prazo meu laudo médico, e consegui me ausentar do trabalho”, garante um dos participantes. “Consegui minha tão sonhada receita médica. Consigo hoje comprar meus remédios, que antes não estava conseguindo. Recomendo, dentro do prazo determinado”, avalia outro que também teria pago ao bando.

Uma jovem de 24 anos, localizada pela reportagem do OCorreio, confidencia que adquiriu um dos documentos falsos. Conforme contou, sua mãe já recebeu a vacina contra a Covid-19. As duas moram no mesmo apartamento. Por isso, decidiu que também precisava ser imunizada, mesmo que ainda não tivesse chegado sua vez na fila.

Apesar de ser obesa, a jovem estava enquadrada na ocasião dentro dos critérios de comorbidades, uma vez que o seu índice de massa corporal (IMC) estava abaixo de 40. Sua decisão, segundo prossegue, foi procurar uma médica amiga da família, que fez um atestado falso.

Durante os contatos, nenhum dos supostos clientes divulgou sua identidade.

Comparsas do golpe

O Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) está atento aos golpes que possam contar com a emissão de laudos falsos. “Se houver prova da participação de médico registrado no Cremers, será instaurada sindicância e provável processo ético-profissional, com a aplicação das sanções previstas no Código de Ética Médica, como suspensão e cassação do exercício profissional”, garante nota da entidade assinada pelo presidente Eduardo Neubarth Trindade.

Denúncias sobre exercício ilegal da Medicina devem ser encaminhadas para o email denuncia@cremers.org.br.

Alerta em Cachoeira do Sul

A coordenadora da Vigilância Epidemiológica, Andréa Santos, admite a dificuldade em identificar a fraude. “Na sala de vacina fica muito difícil para a equipe de vacinadores identificar os documentos apresentados com carimbo e timbre como falsificados”, justifica a enfermeira. “Na suspeita de fraudes deste tipo, recomendamos denúncia na ouvidoria do SUS e Ministério Público”, acentua Andréa. “Já a apresentação de documentos falsos é mais fácil se perceber a fraude, pois o sistema onde é realizado o registro da dose aplicada, acusa CPF inválido, por exemplo”, completa a coordenadora do setor.

Crédito: Reprodução

O secretário municipal da Saúde, Marcelo Figueiró, avalia os obstáculos para a equipe averiguar fraudes. “Laudo e atestado médico são difíceis de contestar. O enfermeiro que fornece a vacina não tem como fazer uma avaliação mais apurada no momento de aplicação da dose”, ressalta o responsável pela pasta.

Delegado comenta sobre esquema

O titular da 1ª Delegacia de Polícia de Cachoeira do Sul, Rodrigo Marquardt Silveira, avalia os crimes praticados pelo esquema, além de alertar sobre a possibilidade de estelionato no caso:

Além da prática criminosa de falsificação e de estelionato, outra linha de investigação é quando médicos também são vítimas das fraudes com seus nomes e número de registro no CRM usados indevidamente.


Pagamento pelo golpe

A negociação entre a integrante do esquema fraudulento e quem acredita ser seu próximo cliente encaminha o acordo para o pagamento:


OC – como faço p pagar?

Negociadora – Preciso que o senhor me encaminhar os dados de todos. Formas de pagamento disponiveis:

> PIX
> Transferência Bancária
> Depósito Bancário

Essas são nossas formas de pagamento

OC – olha so. falei agora c funcionarios. gostaram. muito. querem p famílias deles.kkk. desconto?

Negociadora – Ótimo. obrigado pela indicação, tem sim

OC – to quase virando revendedor de vcs..kkk

Negociadora – Kkk estou vendo mesmo, obrigada pela ajuda


Ao fim da conversa, a reportagem combinou que encaminharia os dados necessários para a elaboração dos laudos médicos fraudados.


Lei x fraude

Quem falsifica laudos está sujeito a duas penalidades. Uma, por estelionato, em função de praticar fraude para obter recurso ilícito, punida com reclusão de um ano a cinco anos. Outra, por falsificação de documento (reclusão de dois anos a seis anos).

Os clientes do esquema também podem ser denunciados por uso de documento falsificado, punível com pena de dois anos a seis anos de reclusão.

Saiba mais

Comorbidades é um termo empregado para designar doenças associadas, como diabetes, hipertensão e obesidade. Estudos mostram que aumentam a chance de que o paciente com Covid-19 evolua para um quadro grave, elevando, portanto, o risco de morte.