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A sexualidade extrapola nossa sociedade.

Desde os gregos e romanos o corpo é símbolo de força e de liberdade.
No sexo feminino, os seios simbolizam a capacidade de amamentar e nutrir a prole, portanto apto à maternidade e à procriação.
Isso vale para o quadril largo, ideal à acomodação do bebê durante a gravidez.
Somado à cintura fina, que é sinônimo de alimentação ponderada, tem-se o corpo ideal, com silhueta em forma de ampulheta.
No sexo masculino, os músculos representam virilidade e capacidade de sustento da prole, segurança para o futuro promissor.
Foi com a religiosidade acentuada do feudalismo europeu que a sociedade ocidental passou a associar o sexo como pecado da carne e despudor, razão pela qual se exigia dos fiéis o cobrimento do corpo e da virgindade para o casamento.
Na Renascença surgiu o baile das debutantes, onde as famílias apresentavam suas filhas com objetivo de encontrar pretendente para casar.
Começava ali a se postergar a entrada das mulheres no mundo sexual, permitindo maior tempo de permanência entre a infância e a vida adulta.
A Revolução Industrial acarretou desenvolvimento econômico e social que indiretamente ampliou o período denominado de adolescência.
As duas grandes guerras deram maior liberdade às mulheres com a inserção no mercado de trabalho e domínio da renda familiar.
Os métodos contraceptivos permitiram a postergação do casamento e dos filhos.
Já nos anos 70, muitos confundiram liberdade com libertinagem e lutaram para destruir aquilo que a sociedade civilizada ocidental tinha alcançado a muito custo, de postergar a entrada do ser humano na vida sexual.
Com o advento das redes sociais se ampliaram as possibilidade de acesso ao voyeurismo, excitação sexual de se assistir os corpos desnudos.
As imagens virtuais coadunam com a passividade de quem as observa, tornando o sujeito mero espectador, não mais ator de suas potencialidades.
Nos dias de hoje, do instagramável, os corpos moldados são objeto de desejo e fonte de sonhos eróticos.
As academias são a passarela para se desfilar os resultados com roupas coladas e nas praias os corpos moldados se revelam nas sungas e nos biquínis minúsculos.
Além do exercício físico se recorre à estética cirúrgica, como colocação de silicone nos seios, harmonização facial com botox, lipoaspiração das gorduras localizadas e a depilação a laser total dos pelos pubianos femininos, dando-lhe maior aspecto de puberdade.
As letras do funk carioca – para ficar num exemplo tipicamente brasileiro – expressam essa sexualização precoce da juventude residente nas periferias.
Colocar o corpo na vitrine deixou de ser pejorativo com o uso de plataformas como OnlyFans – onde as mulheres se intitulam criadoras de conteúdo adulto – e a prostituição que passou a se chamar job para se referir ao trabalho sexual remunerado.
O vídeo do influenciador digital Felca não é o primeiro a mostrar a adultização do sexo entre crianças e adolescentes.
Antônia Fontenelle já havia alertado sobre essa sexualização infantil, mas o vídeo foi excluído das plataformas por decisão judicial que acabou protegendo os atuais acusados.
O assunto agora está sendo politizado pelos mesmos que impulsionam a precocidade sexual.
Basta lembrar como normalizaram a interação infantil na performance do artista nu no Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Apropriam-se do tema para novamente regularizar as redes sociais.
Cabe à sociedade vigiar e punir quem monetiza vídeos que expõem as crianças e adolescentes, sem que para isso se imponha mais censura sobre aqueles que cumprem a lei.
Essa adultização é reflexo da sociedade que valoriza a sexualidade sem qualquer responsabilidade e respeito, sem sentimentos e intenções elevadas, desiquilibrado e vulgar, numa verdadeira sexualização sem conexão.