
As tatuagens estão saindo de moda.
Após anos de valorização por pessoas de maior poder aquisitivo, perfurar o corpo com tinta passou a ser, novamente, um gesto inadequado, indesejável entre a sociedade formal.
A inserção de pigmentos na derme através de agulhas tem origem nos povos nativos da Polinésia no sul do Oceano Pacífico.
O tatau polinésio tem mais de dois mil anos e funciona como uma identidade ou currículo literalmente marcado na pele, indicando linhagem, status social, vitórias conquistadas e importantes marcos da vida.
Considerado um ritual sagrado, consiste em bater e golpear com ferramentas feitas de ossos ou conchas presas a um cabo, formando um pente que injeta a tinta.
Foi o famoso Capitão James Cook, navegador britânico que explorou detalhadamente o Pacífico em três expedições, mapeando Nova Zelândia, Austrália e Havaí entre 1768 e 1779, quem levou a prática para o ocidente.
Virou símbolo dos marinheiros marginalizados ou daqueles que circulavam nos lugares de confinamento, como quartéis, bordéis e prisões.
Utilizavam espinhos e cacos de vidro para picar e cinzas de cigarro, graxa de sapato, carvão vegetal ou até fuligem como pigmento improvisado.
Os desenhos mais comuns eram âncoras, animais, mulheres nuas, símbolos políticos ou religiosos, nomes e iniciais das pessoas amadas.
Nos anos 60, o dinamarquês Knud Gregersen popularizou o gênero no Brasil, com seu estabelecimento na zona portuária de Santos, no litoral paulista.
Sob o pseudônimo de Lucky Tattoo, tatuava marinheiros, prostitutas, presidiários e trabalhadores das docas até que na década de 70 as pinturas caíram no gosto das classes média e alta, para desespero dos pais conservadores.
De símbolo de marginalização passou para arte respeitada e popular.
Virou sinônimo das vontades individuais, como força e proteção, transformação e liberdade, tempo e vida, superação e jornada, amor e memória, além de frases motivacionais ou de cunho sensual e sexual.
Alguns psicólogos afirmam que as pessoas fazem tatuagens nos momentos de angústia e demasiado sofrimento pessoal.
Coincide com os anos 70 em diante, quando as classes média e alta passaram a consumir drogas cada vez mais pesadas, como cocaína, cuja consequência é justamente a depressão.
Mais da metade dos apenados no Brasil possuem tatuagens, que variam conforme o vínculo a que estão sujeitos.
Os desenhos na pele dos detentos representam os crimes que comumente praticam, seu grau de periculosidade, preferência sexual, seu poder ou hierarquia dentro da facção criminosa.
O batismo na facção narcoterrorista do PCC, por exemplo, é representado pelo escorpião.
O marginal que já foi preso várias vezes desenha a cruz; os bandidos que agem em grupo desenham teias de aranha, pistoleiros desenham o diabo; estupradores um genitália nas costas; os homossexuais passivos coração com flecha; e os matadores de policiais rostos de belas índias, caveira com faca no crânio, palhaços e coringas.
A tatuagem está justamente na questão central da política de segurança do presidente Nayib Bukele.
Ele está limpando El Salvador com mãos de ferro contra as gangues que assolaram a população por décadas.
Os tatuados estão sendo encarcerados no Centro de Confinamento do Terrorismo, onde são tratados como todo meliante deve ser.
Por esta e por outras que as pinturas corporais como símbolo valorativo vêm perdendo espaço, com muitos tatuados arrependidos pagando pequenas fortunas para removê-las. É a geração que não quer saber de eternidade em nenhum setor da vida, principalmente do corpo marcado pelo tattoo.