
Em 1920 o suíço Paul Klee pintou o quadro “Angelus Novus”, que retrata a figura de um anjo de boca aberta e olhos arregalados, representando o estado de choque e perplexidade.
É o anjo da história da humanidade, encarando o passado que acumula as ruínas sob seus pés.
Seu desejo é consertar os destroços, mas a tempestade que sopra do paraíso arrasta suas asas abertas para o futuro.
Por mais que queira modificar os erros do passado, a ventania o arrasta para frente.
É incapaz de deter as consequências das opções que foram feitas, precisa assumi-las, mesmo que o fardo seja pesado.
O sopro divino sempre nos leva a caminhar para frente, mesmo nos detendo naquilo que fizemos.
O passado não pode ser alterado, somente o futuro está sempre aberto para nossas novas escolhas.
Lembrei-me dessa pintura depois do ocorrido na Fenarroz com o nosso deputado estadual Cláudio Tatsch, que foi preterido na solenidade, ao não ter sequer o nome anunciado ao público.
As saudações oficiais devem ser direcionadas para a instituição que o indivíduo representa, independente de afinidades pessoais.
Como se fala entre os militares: “cumprimente a farda e não a pessoa”.
Apagar a presença do deputado é apagar a própria Assembleia Legislativa.
É de origem humilde e pessoa que trabalha pelo coletivo, tanto que mora no mesmo local em Cachoeira do Sul e sua casa está sempre aberta para atender quem lhe procura.
Fez sua trajetória política junto ao ex-prefeito e ex-deputado federal Marlon Santos, que se manifestou duramente nas redes sociais, falando do “esforço hercúleo das nossas elites de fidalguia desbotada para manter o pescoço empinado enquanto o chão sob seus pés já ruiu faz tempo”.
Seriam os “barões do nada, os herdeiros de sobrenomes pomposos que hoje não compram uma paçoca no fiado, mas que ainda exigem tapete vermelho”.
Muitos cachoeirenses natos são ungidos nesta sociedade.
São os anjos que fixam seu olhar nas glórias dos tempos áureos, quando o município despontava entre os gaúchos.
Mas os que realmente trabalham pelo futuro sopram o vento das mudanças, impelindo todos para seguir caminhando em frente.
A atitude humilde do deputado Cláudio Tatsch vai lhe render mais apreço popular: acompanhou a cerimônia sem fazer alarde e só depois se manifestou de forma moderada.
Aos que o ofenderam restaram as críticas.
E se querem valorizar o passado?
Comecem disponibilizando carneiras para os mortos.
*sociólogo, doutor em História e professor titular da Universidade Federal do Pampa