#REFLEXÕES… CARNE LEVARE – Jeferson Francisco Selbach

Cachoeira do Sul, · --°C

É quarta-feira de cinzas, que marca o fim do feriadão carnavalesco e o efetivo início do ano no Brasil.

As raízes da festa são antigas e remontam ao fim do inverno no hemisfério Norte.

No Império Romano a Saturnália celebrava o término da semeadura de outono, no solstício de inverno em meados de dezembro e era dedicado a Saturno, deus pagão da agricultura.

Simbolizava o tempo de igualdade, abundância e prazer, com inversão dos papéis sociais, banquetes, máscaras e vestimentas coloridas.

Na Idade Média foi apropriada pelo cristianismo e se tornou o carne levare, expressão latina para a retirada da carne da dieta e início do jejum da Quaresma.

Servia de válvula de escape com regras flexibilizadas, críticas aos poderes constituídos, exageros alimentícios e tolerância social antes de retornar para a rigorosa disciplina religiosa.

Ao final dos festejos o rei do carnaval – representado pelo boneco obeso vestido de forma espalhafatosa – era queimado em praça pública, por isso as cinzas da quarta-feira.

No século XI, as máscaras recomeçaram a ser utilizadas para permitir o anonimato de todos em meio aos festejos da multidão.

A tradição que se espalhou por toda Europa iniciou em Veneza, mantendo-se até hoje como uma das mais sofisticadas do mundo, com máscaras feitas em papel maché decoradas com adereços variados e trajes de época.

O carnaval chegou ao Brasil pelos colonizadores portugueses através do Entrudo (termo em latim para entrada), com brincadeiras expansivas e agressivas que incluíam jogar baldes de água com farinha uns nos outros, ovos e frutas podres.

Em 1854 foi proibido e substituído pela civilidade dos bailes em salões e desfiles organizados nas ruas.

A influência negra no carnaval brasileiro surge com força após a abolição de 1888, com os cordões formados por trabalhadores braçais moradores das favelas, chamados pejorativamente de Zé Povinho.

Desfilavam em fila mascarados e fantasiados de diversas formas: palhaços, diabos, reis, rainhas e figuras da cultura africana.

O Rancho carnavalesco foi o precursor das escolas de samba e consistia numa procissão com Rei, Rainha, porta-estandarte e instrumentos de sopro e cordas ao ritmo lento e dramático.

Os ritmos avançaram para o samba, originado nos batuques que os migrantes baianos levaram para o Rio de Janeiro.

A própria ala das baianas simboliza as senhoras negras que cantavam nas procissões religiosas.

Algumas regiões tem sua própria forma de festejar, como o Axé na Bahia e o Frevo e o Maracatu em Pernambuco.

Na região sul, o carnaval persiste sem muito entusiasmo, muito mais pelo discurso de preservar uma dita cultura popular do que um festejo que envolva efusivamente toda a população.

Apenas 11% dos gaúchos, catarinenses e paranaenses afirmam gostar do carnaval, 19% são indiferentes e 64% simplesmente detestam.

Talvez seja a aversão a muitas das aglomerações carnavalescas que se transformaram em reunião onde o álcool, drogas, pouca roupa, muita pegação, urina e suor acabam levando a brigas generalizadas.

Daí optarem por passar o feriado descansando, viajando ou mesmo em casa.

Acabou o carnaval e o ano agora começa de verdade, sem picanha ou qualquer outro tipo de carne.


*Sociólogo, Doutor em História e Professor Titular da Universidade Federal do Pampa

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