QUANDO O INVERNO CHEGAR – Jeferson Francisco Selbach

Cachoeira do Sul, · --°C

 

“Não adiante bater que eu não deixo você entrar, as Casas Pernambucanas é que vão aquecer o meu lar. Eu vou comprar flanelas, lãs e cobertores eu vou comprar, nas Casas Pernambucanas e nem vou sentir o inverno passar”. O jingle de 1967 nunca me saiu da memória.

Na infância desde pequeno se ia para a escola pela manhã e o frio do inverno não era nada convidativo.

Morávamos longe da escola e íamos de carro, no banco traseiro, enrolados no cobertor.

Quando chegávamos não tinha jeito, era preciso descer e enfrentar as intempéries das salas geladas.

Lembrei daquela época de infância quando levei meu mais velho para a escola, com frio de 2 graus.

Quase sempre encontro no caminho um casal de irmãos, pequeninos, de mãos dadas, indo para a escola sozinhos.

Nos países mais desenvolvidos e civilizados do que o nosso, essa é uma prática comum, das crianças irem desacompanhadas dos pais.

Bem no norte, onde neva boa parte do ano, os recém-nascidos são deixados sozinhos do lado de fora dos estabelecimentos, dormindo no carrinho para se acostumarem com o clima gélido.

Nós que habitamos o sul do Brasil temos o privilégio de passar pelas mudanças nas estações, com primaveras floridas, verões escaldantes, outonos chuvosos e invernos rigorosos.

Faz parte da nossa tradição sulista enfrentar o frio, com alimentação propícia como sopas, caldos, pinhão, bergamota, mondongo ou mocotó, além do chimarrão e do vinho.

Nas roupas passamos pelo efeito cebola, entrouxados bem cedo e tirando as peças à medida que o sol esquenta, até recolocar tudo de novo com a chegada da noite.

Nas residências, o fogão a lenha, lareira e aquecedores tentam melhorar o ambiente, pois nossas casas, por incrível que pareça, não são projetadas para o frio intenso.

A começar pela orientação solar, deixada de lado na maioria das vezes, fazendo com que os ambientes não recebam sol da manhã.

Além das janelas por onde passa vento pela menor das frestas.

Do banho nem é bom falar, a depender do chuveiro água quente é com um filete.

Para dormir, cobertores e mais cobertores fazem o caminho inverso: gelado quando deitamos e aquecidos quando precisamos levantar.

Por isso os domingos são mais curtos, com o café da manhã emendando o almoço.

Existe uma crença popular sobre os desafios do clima frio no desenvolvimento das nações, pois exigiria das pessoas maior inovação, organização e planejamento para garantir a sobrevivência.

Tem até uma fábula infantil clássica das formigas, que trabalhavam arduamente para estocar alimentos para enfrentar o inverno que chegaria, e a cigarra despreocupada que só queria cantar.

O frio e a fome fizeram com que a cigarra procurasse as formigas em busca de abrigo e alimento, sendo acolhida no formigueiro.

A solidariedade nos dias gelados é motivo de orgulho do gaúcho, basta ver a campanha do agasalho todos os anos.
As equipes de assistência social vão em busca dos moradores de rua para leva-los aos albergues.

O frio pode ter seu charme, para quem consegue se aquecer, mas é um rigoroso companheiro da vida, a nos mostrar que precisamos sempre nos preparar para o futuro.

Abra seu guarda-roupa e doe para quem mais precisa.

Com este gesto de solidariedade, aqueça os necessitados e o seu próprio coração.

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