Professores entre o descaso e o esquecimento: a conta que o Governo Lula impõe à educação – por Francis Soares

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– Francis Soares

 Entrelinhas
Entrelinhas

O final de 2025 e o início de 2026 marcaram um novo capítulo de frustração para os professores da educação básica no Brasil. Em edição extra do Diário Oficial da União, o Governo Federal confirmou que o reajuste do piso salarial nacional do magistério para 2026 será de apenas 0,37%. O índice, calculado com base no Valor Aluno Ano do Fundeb, não recompõe sequer a inflação recente e aprofunda a sensação de abandono vivida por uma categoria historicamente desvalorizada.

A decisão provocou reação imediata de entidades representativas, como a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e sindicatos filiados, entre eles a APEOC. O entendimento é unânime: o percentual anunciado não configura valorização, mas sim um gesto simbólico que beira o deboche com os profissionais da educação, muitos dos quais depositaram expectativas e apoio político no atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante as eleições de 2022.

Reajuste que não chega ao bolso

Na prática, o reajuste de 0,37% significa perda de poder de compra. Trata-se de um índice incapaz de acompanhar o custo de vida, as despesas com formação continuada, materiais pedagógicos e, sobretudo, as condições precárias enfrentadas diariamente nas escolas públicas brasileiras. A própria Lei do Piso (Lei nº 11.738/2008), embora respeitada formalmente, revela-se insuficiente diante de um modelo de cálculo que, em determinados contextos econômicos, produz aumentos irrisórios e descolados da realidade social.

A CNTE já solicitou audiência com o Ministério da Educação para discutir alternativas ao atual critério de atualização do piso, além de cobrar a retomada efetiva do Fórum do Piso. Também não está descartada a edição de uma Medida Provisória para recomposição inflacionária com ganho real. Até o momento, no entanto, nenhuma proposta concreta foi apresentada pelo governo, reforçando a percepção de inércia e distanciamento em relação às demandas da categoria.

Aposentadoria mais distante

Como se o arrocho salarial não bastasse, os professores também enfrentam, a partir de 2026, regras mais rígidas para aposentadoria. Pelas normas de transição da Reforma da Previdência, a idade mínima exigida passou a ser de 54 anos e 6 meses para mulheres e 59 anos e 6 meses para homens, mantendo-se os tempos mínimos de contribuição no magistério.

Embora essas regras tenham origem na Emenda Constitucional nº 103/2019, sua aplicação progressiva ocorre agora, sob a gestão do atual governo, e impacta diretamente milhares de docentes que se encontravam próximos da aposentadoria. Para muitos, o sentimento é de desgaste físico e emocional prolongado, sem a contrapartida de políticas efetivas de valorização profissional.

O contraste com 2022

Ao analisar o histórico recente, um dado chama atenção: o único reajuste real expressivo do piso do magistério ocorreu em janeiro de 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro, quando o piso nacional foi reajustado em 33,24%. Na ocasião, o valor saltou para R$ 3.845,63, representando o maior aumento percentual desde a criação da lei do piso e garantindo ganho real acima da inflação.

Desde então, os reajustes passaram a ser progressivamente menores. Em 2024, por exemplo, o índice ficou em torno de 3,62%, abaixo da inflação acumulada. Em 2026, o percentual de 0,37% simboliza o ponto mais baixo dessa trajetória, consolidando um ciclo de perdas salariais e frustração crescente.

A fratura entre discurso e prática

O que mais incomoda a base docente não é apenas o número frio do reajuste, mas a contradição entre o discurso histórico de valorização da educação e a prática adotada pelo Governo Federal. Professores, que foram protagonistas na defesa da democracia e no apoio eleitoral ao atual presidente, veem-se agora relegados a um segundo plano, tratados como custo e não como investimento estratégico para o país.

A educação pública segue sendo exaltada nos discursos oficiais, mas, na realidade concreta, professores acumulam perdas, adiam aposentadorias e enfrentam um cotidiano cada vez mais extenuante. O resultado é um sentimento generalizado de desrespeito e desvalorização, que ameaça não apenas a carreira docente, mas a própria qualidade da educação brasileira.

Enquanto o governo não assume uma postura firme e dialogada para corrigir essas distorções, cresce entre os educadores a convicção de que o apoio dado em 2022 não encontrou reciprocidade nas políticas adotadas a partir de então. E, como a história mostra, ignorar professores nunca foi um bom caminho para qualquer projeto de nação.

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