
Os telefones públicos — popularmente conhecidos como orelhões — por décadas fizeram parte da paisagem urbana e da rotina dos moradores de Cachoeira do Sul. Símbolos de uma época em que a comunicação dependia de fichas ou cartões, esses equipamentos atravessaram gerações até deixarem de existir, mas ainda estão carregados na memória. Um deles, mesmo depois de uma campanha para sua extinção total, sobrevive. Está intacto, apesar das intempéries. Pode ser visto e tocado. Ele está localizado na calçada da Rua Batista Carlos, quase esquina com a Avenida Presidente Vargas, no Bairro Barcelos, em Cachoeira do Sul.
Está tão esquecido, que nem chama atenção. Moradores das proximidades nem se dão conta do orelhão e ninguém mais lembra que nas décadas de 70, 80 e até 90, filas eram formadas nos telefones, tudo para que alguém pudesse se comunicar com pessoas, empresas, órgãos públicos ou até mesmo pedir uma música nos programas das rádios locais.
Os orelhões também sofreram com vandalismo. Espalhados por vários locais como na frente de escolas, nas ruas, nas praças e até no interior de órgãos públicos, seguidamente eram depredados.
Remanescentes de uma época que havia no Rio Grande do Sul mobilização para instalação de telefônicos públicos, caso um político intercedesse junto à Companhia Rio Grandense de Telecomunicações (CRT), para conseguir um telefone público para um ponto de qualquer cidade do RS, era certo que seria realizada uma solenidade com a presença de moradores, lideranças e políticos. Era uma grande conquista.

FACILITAR O ACESSO AO TELEFONE
Os orelhões começaram a se espalhar pelo Brasil a partir da década de 1970, impulsionados pela estatal Telebras, como forma de democratizar o acesso ao telefone. Em cidades do interior gaúcho, como Cachoeira do Sul, eles chegaram pouco depois, instalados em pontos estratégicos. Na época, ter uma linha telefônica residencial era caro e restrito a poucos. Assim, os orelhões se tornaram essenciais para ligações urgentes, recados familiares e até contatos comerciais.
Em Cachoeira do Sul, os orelhões se concentravam em locais de grande circulação. Era comum ver filas, principalmente em horários de pico ou datas comemorativas, quando moradores buscavam falar com parentes distantes. Na Praça Honorato Santos, junto ao ponto de táxi, a CRT instalou na década 80 três orelhões. Além da função prática, os orelhões também marcaram o cotidiano social: eram pontos de encontro, referência geográfica e até cenário de histórias urbanas.
O DECLÍNIO COM A CHEGADA DA TELEFONIA MÓVEL
A partir dos anos 2000, com a popularização dos celulares, o uso dos orelhões começou a cair drasticamente. Empresas como a Oi — que assumiu a operação após a privatização do sistema Telebras — passaram a reduzir investimentos na manutenção desses equipamentos. Em Cachoeira do Sul, muitos orelhões deixaram de funcionar, foram vandalizados ou simplesmente removidos.
Linha do tempo dos orelhões em Cachoeira do Sul.
DÉCADA DE 1970

- Implantação dos primeiros orelhões no Brasil pela Telebras.
- Chegada gradual ao interior do Rio Grande do Sul.
Anos 1980 - Expansão dos orelhões em Cachoeira do Sul.
- Uso intensivo pela população; fichas telefônicas se popularizam.
Anos 1990 - Introdução dos cartões telefônicos.
- Modernização dos aparelhos e aumento da cobertura na cidade.
Final dos anos 1990 – início dos 2000 - Privatização do sistema Telebras.
- Operação passa para empresas como a Oi.
Anos 2000 - Crescimento acelerado da telefonia móvel.
Queda no uso dos orelhões.
Anos 2010 - Desativação e retirada de diversos equipamentos em Cachoeira do Sul.
- Orelhões tornam-se cada vez mais raros.
Anos 2020 - Presença residual de orelhões.
- Equipamentos passam a ser vistos como símbolos históricos e culturais.
QUEM ELABOROU O DESIGN DOS ORELHÕES
O sucesso dos orelhões não se explica apenas pela utilidade — o design foi decisivo para que eles se tornassem um dos ícones mais reconhecíveis das cidades brasileiras.
Criado pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira no início dos anos 1970, o projeto partiu de um desafio claro: desenvolver um telefone público que fosse barato, resistente, confortável e eficiente acusticamente. O traço mais marcante do orelhão é sua forma arredondada, semelhante a uma concha ou a um ovo. Essa escolha não foi estética por acaso. A arquiteta defendia que o formato do ovo é ideal para a acústica, pois ajuda a concentrar o som e reduzir ruídos externos.
APELIDOS E CULTURA POPULAR
A criatividade popular rapidamente adotou o equipamento, que ganhou apelidos curiosos:
“Orelhão” — pela semelhança com uma orelha gigante
“Tulipa” — em algumas regiões, pelo formato aberto
“Capacete” — referência ao abrigo sobre a cabeça
Em Cachoeira do Sul, o termo “orelhão” sempre predominou, incorporado ao vocabulário cotidiano.