#EntreLinhas – O paradoxo do FAPS e a ética da consciência seletiva – por FRANCIS SOARES

Cachoeira do Sul, · --°C

O Cínico Espelho da Oposição

Em Cachoeira do Sul, testemunhamos a reencenação de uma peça antiga, mas sempre atual, da política menor: a inversão moral por conveniência. O centro do palco é o destino do Fundo de Aposentadoria e Pensão dos Servidores (FAPS), e o ato final é a tentativa de mobilizar a opinião pública contra a atual gestão municipal.

O paradoxo é gritante. A base da crítica de hoje é composta por figuras que, na administração anterior, não apenas contemplaram, mas ativamente tentaram “empurrar” a mesma proposta de parcelamento que agora denunciam com veemência.

Do Imperativo Burocrático ao Grito de Ressentimento

Quando estavam no poder, a defesa do parcelamento era tratada como um imperativo categórico da administração. Era a lógica do gestor, a razão instrumental fria que justificava o sacrifício de um princípio em nome da manutenção da máquina. A ação era vista como “boa” por ser a única forma de afirmar a força (ou adiar a fragilidade) do governo.

A saída do poder, no entanto, operou uma transvaloração radical. O que era pragmatismo urgente transformou-se, subitamente, em um erro moral crasso e um atentado contra o futuro dos servidores. O mais revelador é que essa mudança de convicção coincide com a mudança de status desses críticos: de autores da decisão para afetados por ela, agora na condição de meros funcionários públicos.

O Poder Reativo e a Moralidade de Fachada

Esta súbita conversão não é um despertar ético; é a manifestação do poder reativo.

Incapazes de exercer a Vontade de Poder pela via da ação (governar e decidir), eles a exercem pela via da narrativa e da sabotagem. A crítica feroz, travestida de preocupação com a moralidade e com o futuro do servidor, é na verdade um grito de ressentimento pela impotência. Eles canalizam o medo legítimo da categoria — que agora os inclui — para deslegitimar o adversário.

A moralidade, nesse contexto, vira uma arma tática. O grupo tenta construir uma moralidade de rebanho (a defesa corporativa dos servidores) para coagir a gestão e, de quebra, recuperar a própria legitimidade perante a opinião pública, limpando o passado de sua própria tentativa de parcelamento.

O que a história do FAPS em Cachoeira do Sul nos ensina é que, para esses atores, a validade de uma ação não reside em seu mérito intrínseco, mas sim na posição hierárquica de quem a executa. O que era sacrifício necessário no governo, vira crime inaceitável na oposição.

A Lição Final: A Consciência Seletiva

A grande questão não é o parcelamento em si, mas a integridade dos atores políticos. A postura atual dos ex-gestores expõe a completa fragilidade de suas convicções.

A crítica pública não é um ato de responsabilidade, mas um ato de consciência seletiva, onde a moral só é ativada quando os próprios interesses e a busca por um novo palanque estão em jogo. O eleitor e o servidor de Cachoeira do Sul merecem saber que os arautos da moralidade de hoje são os arquitetos pragmáticos de ontem. A verdadeira crítica reside em apontar não apenas a ação, mas a incoerência do agente.

– Francis Soares

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