
Conhecidos descrevem como “muito discreto” e reservado o homem preso em flagrante pela Polícia Civil sob suspeita de manter a companheira e os dois filhos do casal em cárcere privado em Cachoeira do Sul. Trata-se de Auri Antônio Bernardes, de 50 anos, detido na terça-feira (14) em uma residência na Rua Andrade Neves, na divisa dos bairros Barcelos e Bom Retiro, na zona leste da cidade.
Até a prisão, o suspeito trabalhava com fretes e também mantinha uma empresa voltada à prestação de serviços de pedreiro, realizando construções e reformas. Pessoas que o conhecem relatam que ele tinha poucos amigos e mantinha rotina discreta.
A prisão foi efetuada pela Delegacia de Proteção a Grupos Vulneráveis (DPPGV), após denúncia de cárcere privado encaminhada pela área de assistência social do município. O flagrante foi lavrado pelo delegado Tiago Werkhauser Bittencourt, titular da Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA).
Segundo o delegado, assim que receberam a denúncia, os policiais foram até o endereço e constataram a situação. Ao perceber a presença dos agentes, a vítima, de 42 anos, pediu socorro e chegou a agradecer pela intervenção. Em seguida, relatou um histórico de relacionamento abusivo, com violência psicológica, agressões físicas e controle constante.
“Ciúme excessivo, muito controlador”, afirma delegado
“Desde 2015, o companheiro exerce um controle bastante efusivo, tanto com uso de câmeras de vigilância na casa, vigiando seus passos e impedindo-a de sair. Ela teve de deixar o emprego porque ele a monitorava no local de trabalho. O acusado tinha um ciúme bastante excessivo, muito controlador, tanto que ela sequer conseguia ir à delegacia registrar ocorrência”, afirmou o delegado.
Inicialmente, as informações apontavam para cerca de sete anos de violência. No entanto, novos elementos apurados indicam que a situação pode ter se estendido por aproximadamente 10 anos de convivência marcada por abusos.
A mulher e os dois filhos, ainda crianças, foram retirados da residência e encaminhados para local não revelado. De acordo com a Polícia Civil, o fato de as agressões terem sido presenciadas pelas crianças pode agravar a situação. Elas deverão receber acompanhamento da rede assistencial.
Ainda conforme o delegado, existem registros policiais desde 2016 por lesão corporal e cárcere privado. Entretanto, não houve indiciamento à época. “Para a apuração policial ser efetiva, é preciso romper o ciclo e haver o completo afastamento do companheiro agressor. Do contrário, o Estado, por si só, não tem como dar um desfecho definitivo a esse tipo de situação”, explicou.
Durante a ação, os policiais apreenderam cacetetes e facas na residência. O suspeito foi encaminhado ao Presídio Estadual de Cachoeira do Sul, onde permanece recolhido preventivamente. Outros crimes, como ameaça e lesão corporal, também serão apurados em inquérito.
“Saio destruída com meus dois filhos, mas com vontade de vencer”
Em entrevista à TV Cachoeira, a vítima relatou alívio após a prisão. “Estou saindo destruída junto com meus dois filhos, mas com vontade de vencer”, afirmou. Ela disse que enfrentou momentos de pânico para conseguir sair da situação. “Mas infelizmente, só assim para sair de uma situação como essa.”
A mulher também deixou um recado a quem vive situação semelhante. “Busquem ajuda, salvem seus filhos, suas almas. Ainda estou com medo, mas aliviada. Ninguém espera viver isso, a gente casa para duas pessoas somarem, não viver esse pesadelo”, declarou.
A defesa do suspeito informou que pretende apresentar provas para contestar a existência de cárcere privado. Segundo os advogados, serão utilizadas, entre outros elementos, imagens das câmeras de vigilância da residência para demonstrar a liberdade de ir e vir da mulher. O caso segue sob investigação da Polícia Civil.