#ColunadoTonet - por Ronaldo Tonet
O Senado do Uruguai aprovou, por ampla maioria, a legalização da eutanásia, colocando o país entre um seleto e controverso grupo de nações que permitem a morte medicamente assistida. Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Canadá, Espanha e Nova Zelândia já haviam trilhado esse caminho.
A decisão, porém, transcende o campo jurídico. Ela representa um abalo filosófico e moral. Desde Hipócrates — que fez o juramento de “não dar remédio mortal a ninguém, mesmo que solicitado” —, a medicina se orienta pelo princípio de preservar a vida. A nova legislação, no entanto, inverte esse vetor: o médico, antes guardião da sobrevivência, torna-se executor de um ato de cessação.
Os defensores da eutanásia invocam a liberdade e a dignidade, ou seja, o direito de cada ser humano decidir o limite de seu sofrimento e evitar a degradação física e moral imposta por doenças terminais. Nessa visão, a morte assistida não é uma negação da vida, mas uma extensão do direito à autodeterminação.
Os opositores, porém, lembram que há valores que não se relativizam. A tradição cristã, que é o sustentáculo ético do Ocidente, considera a vida um dom sagrado, não um bem disponível. A dor, embora difícil, pode ter um sentido. Abreviar a existência seria arrogar-se o poder de Deus e dissolver a fronteira entre o humano e o divino. Além disso, teme-se um deslizamento moral: hoje o doente terminal, amanhã o deprimido e depois o idoso solitário.
Há também um paradoxo inquietante. Vivemos na era em que a medicina prolonga a vida, mas também é uma época em que cresce o desejo de encurtá-la. O progresso técnico amplia o controle sobre o corpo, mas também aumenta o desencanto com a condição humana. A eutanásia surge, assim, como o sintoma extremo de uma civilização que não sabe mais como lidar com o sofrimento.
O caso uruguaio nos obriga a enfrentar a pergunta essencial: até que ponto o ser humano é senhor de si mesmo? A autonomia, quando absoluta, beira a autodestruição. A liberdade, sem o freio da moral, pode se transformar em tirania sobre o próprio corpo.
Olhar para alguém acometido por uma doença terminal que suplica pelo fim é reconhecer o limite da razão. É preciso ter compaixão, mas também discernimento. O desafio ético do nosso tempo é encontrar um caminho que não desfigure a humanidade.
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