João Neves da Fontoura: 134 anos de nascimento do cachoeirense que mudou nossa história

Por 15 de novembro de 2021

João Neves da Fontoura. Quando nasceu, no dia 16 de novembro de 1887 em Cachoeira do Sul, era apenas um nome. Mas ao falecer, no Rio de Janeiro, em 31 de março de 1963, deixava sua marca na história. Um legado.

Foi um advogado, diplomata, jornalista, político e escritor. Seu currículo ainda incluiu ser deputado federal, ministro das Relações Exteriores durante os governos de Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra, embaixador do Brasil em Portugal entre 1943 e 1945, membro da Academia Brasileira de Letras e correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. Ainda recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Columbia e a Ordem do Congresso Nacional.

Filho do coronel Isidoro Neves da Fontoura de Adalgisa Franco de Godoy, seus primeiros estudos foram no Ginásio Nossa Senhora da Conceição, no município de São Leopoldo. Pela parte materna, foi neto de Zulmira Fioravanti e bisneto de Antônio Ângelo Cristino Fioravanti, advogado e político influente no Rio Grande do Sul. Sua árvore genealógica ainda posiciona seu nome como sendo trineto do Marco Cristino Fioravanti, médico veneziano, e o primeiro Fioravanti a chegar no Brasil em 1803, em Santo Antônio da Patrulha, mudando para São Borja em 1835.

Já por parte paterna, teve ascendência portuguesa, sendo descendente de João Carneiro da Fontoura, originário de Chaves. João Neves da Fontoura era casado com a também cachoeirense Iracema Barcelos de Araújo, com quem teve três filhos. Seu irmão, Floriano Neves da Fontoura, foi deputado estadual e seu sobrinho, general Carlos Alberto da Fontoura, foi chefe do Serviço Nacional de Informações e embaixador do Brasil em Portugal de 1974 a 1978.

Formado em 1909 em ciências jurídicas e sociais na Faculdade de Direito de Porto Alegre, onde ingressou em 1905, participou do Bloco Acadêmico Castilhista, vinculado ao Partido Republicano Riograndense (PRR), o mesmo ao qual era vinculado Getúlio Vargas. Iniciou a carreira política e pública ainda estudante, sendo nomeado pelo então governador Borges de Medeiros como promotor na Capital, cargo que exerceu durante um ano – deixando o cargo para retornar à sua cidade natal, onde o pai foi intendente municipal. Em Cachoeira do Sul, exerceu a advocacia e continuou na política. Foi redator nos jornais Rio Grande (de Cachoeira do Sul), e O Debate, de Porto Alegre, onde fundou a revista Pantum.

Após 1921, foi um dos deputados estaduais mais ativos, participando, em 1924 do levante tenentista. Em 1925 foi eleito intendente de Cachoeira do Sul. Em 1927 foi eleito vice-presidente do Estado, ao lado de Getúlio Vargas. No ano seguinte, deputado federal.

Intendente de Cachoeira do Sul

Eleito prefeito de Cachoeira do Sul de 1925 a 1928, João Neves da Fontoura realizou diversas obras de saneamento básico. Colocou carros motorizados para o recolhimento de lixo, instituiu a cobrança de taxas para custeio de despesas e concluiu a segunda hidráulica municipal. Muitas das obras foram marcadas pela estética, para além da função estrutural. Ainda na sua gestão, boa parte das ruas centrais foram calçadas com paralelepípedos. Ainda foram instituídas exigências higiênicas das residências, como quartos de banho, chuveiro e pia de cozinha. Quando a fiscalização começou a notificar os moradores, verdadeira romaria de viúvas e pessoas pobres acorreu ao gabinete de João Neves da Fontoura. Por essa razão, instituiu a política do mandar fazer as obras e receber quando as pessoas pudessem pagar, lançando em dívida ativa, esperando que, com a morte dos proprietários, fosse possível resgatar as dívidas no inventário.

Outra visibilidade dada pelo intendente João Neves da Fontoura foi no reajardinamento das praças centrais. Na praça José Bonifácio, as paineiras foram substituídas por novas mudas. Em 1928, foi construída a “elegante” pérgula, passeio feito com duas séries de colunas paralelas para suportar as tumbergias e roseiras-trepadeiras. Também o bebedouro de animais foi transferido para a praça São João, no Bairro Fialho.

O aspecto estético da arquitetura e do espaço urbano da zona central, em fins dos anos 20, aproximaram Cachoeira dos centros mais desenvolvidos do Estado e do país. O calçamento de pedra na rua chamava atenção. Nas calçadas, o piso quadriculado foi destaque. O meio-fio retilíneo dava mostras da padronização e organização desejáveis. A arborização disposta quebrava a frieza das pedras. Os prédios, mesmos os mais antigos, auxiliavam na harmonia do ambiente.

A revolução de 1930

João Neves da Fontoura participou ativamente, em maio de 1929, das articulações oposicionistas, compostas pelos dois estados dissidentes (Minas Gerais e Rio Grande do Sul), que formaram a chamada Aliança Liberal, em um acordo conhecido como “Pacto do Hotel Glória” (referência ao hotel carioca, onde se deram as reuniões), que lançou a candidatura de Vargas.

A Revolução Constitucionalista

A nomeação de João Alberto Lins de Barros como interventor paulista deflagrou a reação política dos derrotados por Vargas, eclodindo a Revolução Constitucionalista a 9 de julho de 1932. Aderiu João Neves ao movimento que, derrotado, forçou o cachoeirense a um exílio na Argentina por cerca de dois anos.

Reaproximação com Vargas

Os efeitos da revolta paulista levaram Getúlio a convocar uma Assembleia Constituinte, em 1933, aprovando a Carta em 1934, ano em que ocorrem novas eleições para o Congresso. João Neves da Fontoura foi eleito deputado federal, em 1935.

Integrou a minoria oposicionista, suspendendo os efeitos da Constituição recentemente aprovada. No ano seguinte, foi eleito para a Academia.

Diplomacia

Durante o Estado Novo, foi o representante brasileiro em diversas ocasiões: em 1940, esteve na Conferência de Havana, representou o país nas posses presidenciais no Panamá e em Cuba. Em 1943, foi nomeado embaixador em Portugal, permanecendo em Lisboa até 30 de outubro de 1945.

Afastado Vargas do poder, e voltando o país ao regime democrático, João Neves entrou para o PSD e foi nomeado ministro das Relações Exteriores.

Eleição presidencial de 1945

Por duas vezes, de seu exílio de São Borja, Getúlio Vargas escreveu para João Neves pedindo que o político cachoeirense fosse candidato para presidente da República. “Em 29, eu fui o candidato, tu foste o líder. Agora, tu serás o candidato, e eu o líder”, escreveu Vargas em um dos trechos. João Neves recusou a proposta para apoiar Eurico Gaspar Dutra, que, posteriormente, saiu vencedor do pleito.

Ao sair da vida pública, em definitivo no Rio de Janeiro, o cachoeirense passou a escrever artigos conservadores nas páginas do jornal O Globo.

Foi o segundo ocupante da cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras.

O nome do Plenarinho da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul possui é uma homenagem ao político de Cachoeira do Sul. O prédio da Câmara de Vereadores também recebeu seu nome, além de rua em Cachoeira do Sul e o Instituto Estadual de Educação João Neves da Fontoura.

A lista de suas obras inclui: O segredo profissional (1909); A jornada liberal (1931); Por São Paulo e pelo Brasil (1932); Acuso (1933); A voz das oposições brasileiras (1935); Dois perfis (1938); Pareceres jurídicos, 2 vol. (1942); Orações dispersas (1944); Poeira das palavras (1953); e Memórias (vol. 1, 1958 e vol. 2, 1963).