
A forma como empresas e grupos contratam veículos para deslocamentos no Brasil passou por uma reorganização silenciosa nos últimos anos.
O modelo tradicional, em que a empresa alugava o veículo da locadora e colocava um funcionário próprio para dirigir, ou ainda dividia o grupo em vários carros conduzidos pelos próprios passageiros, vem cedendo terreno para o fretamento com motorista incluído.
A mudança aparece em pesquisas de mercado, em dados oficiais do setor e na rotina de quem organiza viagens corporativas, traslados para eventos e excursões.
Segundo levantamento do Fretadão, plataforma de gestão de transporte corporativo que opera em 21 estados brasileiros e administra mais de 2,5 milhões de viagens mensais, a procura pelo serviço de fretamento cresceu 20% em 2024 em relação ao ano anterior.
O retorno ao trabalho presencial em diversas empresas, somado à explosão do calendário de feiras e congressos no país, foi apontado como o principal motor da expansão.
Em paralelo, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) registrou crescimento no número de postos formais no setor de rodoviário de passageiros em regime de fretamento, indicador que confirma o aquecimento.
A diferença entre os dois modelos é maior do que parece
Locação tradicional e fretamento são serviços distintos, embora ainda sejam tratados como sinônimos por parte do mercado. No modelo de locação, o cliente recebe o veículo e assume integralmente a operação: combustível, manutenção corrente, multas, eventuais sinistros e, sobretudo, a responsabilidade legal pela condução. Quem dirige é o próprio cliente ou um motorista contratado por ele.
No fretamento, o veículo vem com motorista profissional vinculado à empresa de transporte, que responde pela operação completa: condução, manutenção, documentação, seguros e cumprimento das exigências de agências reguladoras.
Essa distinção, aparentemente técnica, virou ponto decisivo para empresas que precisam transportar grupos de funcionários, executivos, convidados ou participantes de eventos.
A locação sem motorista cria uma cadeia de responsabilidades difícil de gerenciar: o funcionário designado para dirigir precisa ter habilitação compatível com o veículo, jornada de trabalho organizada para acomodar a função de motorista, treinamento mínimo de direção defensiva, e a empresa contratante assume integralmente os riscos trabalhistas e civis em caso de acidente. No fretamento, esse passivo migra para a transportadora.
Em segmentos como o de transporte de funcionários para o trabalho, conhecido como fretamento contínuo, a equação é ainda mais evidente.
Pesquisa citada pela plataforma Fretadão mostra que 84% das empresas brasileiras buscam alternativas para o deslocamento de seus colaboradores, em um movimento que combina três pressões simultâneas: o encarecimento do vale-transporte público em algumas regiões, a localização de centros de distribuição e fábricas em áreas mal servidas por transporte coletivo, e a exigência crescente de pontualidade nas operações logísticas.
A conta da economia muda quando o motorista entra no pacote
Quando uma empresa avalia migrar da locação tradicional para o fretamento, a primeira reação costuma ser comparar apenas o preço da diária do veículo. Nessa conta, a locação parece mais barata.
Mas a comparação só faz sentido quando se inclui no orçamento da locação todos os custos paralelos: combustível, motorista designado, hora extra do funcionário-motorista, estacionamento, seguro adicional, eventual rastreador, manutenção emergencial e o tempo gasto pela equipe interna para organizar a logística.
Casos relatados pelo próprio setor indicam economia relevante quando o exercício é feito com transparência. Uma empresa de cinquenta funcionários que migrou da rotina anterior, com vários veículos individuais, para o fretamento de uma van executiva mensal, calculou economia próxima de R$ 120 mil ao ano.
O cálculo considerou eliminação do vale-combustível individual, redução de horas extras vinculadas a deslocamentos, queda no número de sinistros e simplificação contábil.
Para grupos não corporativos, a lógica é semelhante. Excursões de igreja, comitivas de associações de classe, grupos de amigos viajando para eventos esportivos e famílias estendidas que se reúnem para casamentos ou aniversários em outras cidades passaram a contratar van ou micro-ônibus com motorista em vez de dividir o grupo em carros particulares.
O argumento mais citado nesses casos não é financeiro, mas operacional: ninguém precisa dirigir, todos chegam juntos, não há decisão sobre quem fica responsável por motorista designado e o grupo desembarca exatamente no destino, sem necessidade de estacionamento.
A regulação ficou mais rígida e isso pesou na balança
Outro fator que acelerou a migração foi o aperto regulatório sobre operações de transporte coletivo de passageiros. Empresas formais de fretamento operam com credenciamento na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) quando atuam em rotas interestaduais ou internacionais, em agências estaduais quando a operação é intermunicipal, e em órgãos municipais para operações dentro de uma única cidade.
A documentação inclui cadastro de motoristas com curso específico, vistoria periódica dos veículos, contratos de seguro com cobertura ampliada para passageiros e registros de viagens.
Para uma empresa que aluga o veículo e coloca um funcionário próprio para dirigir, a situação jurídica é ambígua. Se o deslocamento é eventual e o motorista é colaborador da empresa exercendo função compatível, o risco é gerenciável.
Se o deslocamento é recorrente, com passageiros pagantes ou em estrutura de transporte regular, a operação pode ser enquadrada como serviço irregular de transporte, sujeita a autuação.
O cenário ficou particularmente delicado para empresas que organizam transporte para clientes ou para grupos mistos, em que o passageiro nem sempre é funcionário direto da contratante.
O fretamento contratado de empresa especializada resolve esse risco pela transferência da responsabilidade operacional. A transportadora responde pelo enquadramento regulatório, pela habilitação do motorista, pela documentação do veículo e pelo seguro de passageiro.
A empresa contratante se concentra na sua atividade principal e contabiliza o serviço como despesa operacional, sem precisar manter estrutura interna de transporte.
O boom de eventos virou laboratório de migração
O setor de eventos foi um dos catalisadores mais visíveis dessa mudança. Em 2024, segundo o Visite São Paulo Convention Bureau, foram realizados 5.262 eventos apenas na capital paulista, movimentando R$ 22,2 bilhões. O número quase triplicou em relação aos 1.923 eventos registrados em 2023.
No primeiro trimestre de 2025, foram 1.584 eventos, com movimentação de R$ 5,9 bilhões, alta de 110% sobre o mesmo período do ano anterior. Cada evento de médio ou grande porte gera demanda por traslados de palestrantes, equipes técnicas, expositores, convidados e visitantes vips.
Em volumes assim, contratar locação avulsa para cada deslocamento se mostrou inviável. O setor migrou rapidamente para contratos de fretamento sob demanda, em que a empresa organizadora do evento define a malha de traslados, e a transportadora aloca van, micro-ônibus ou ônibus com motorista conforme cada janela horária. A operação ganha previsibilidade, e o custo total cai porque a otimização das rotas reduz o tempo ocioso dos veículos.
Empresas que organizam congressos, feiras e convenções relatam que a contratação de transporte fretado deixou de ser detalhe operacional e virou ponto estratégico dos orçamentos.
De acordo com o especialista em locação de van em São Paulo, Fernando Ribeiro, da New Way Vans, empresa com 19 anos de mercado e mais de 90 mil locações realizadas, a procura por modelos com motorista representa hoje a maior parte dos pedidos recebidos.
“O cliente que antes alugava o veículo e mandava o próprio funcionário dirigir descobriu que isso saía mais caro, mais arriscado e mais trabalhoso. Hoje, o que ele quer é entregar o problema para a empresa de transporte e receber o serviço pronto”, afirmou.
A frota cresce e diversifica
O movimento de migração foi acompanhado por uma renovação e ampliação das frotas das transportadoras. Dados do Anuário Brasileiro do Setor de Locação de Veículos 2025, publicado pela Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (ABLA), mostram que o setor faturou R$ 52,9 bilhões em 2024, com crescimento de 17,8% sobre 2023.
As locadoras adquiriram 649.399 carros zero-quilômetro no ano, o que representou 26,1% de todos os automóveis e comerciais leves emplacados no país.
O segmento de veículos coletivos cresceu de forma ainda mais expressiva. Foram emplacados 2.762 ônibus e micro-ônibus por locadoras em 2024, alta de 27,9% sobre o ano anterior, elevando a frota total dessas categorias em mãos de empresas de locação para 8.819 unidades, crescimento de 10,5%.
O número de locadoras em atividade no Brasil passou de aproximadamente 20 mil para quase 24 mil entre 2023 e 2024, expansão de 19,2%, segundo a ABLA. A maioria dessas empresas é de pequeno e médio porte, com frota especializada em fretamento.
A diversificação de veículos foi parte da estratégia para atender o novo perfil de cliente. Sprinters executivas de quinze, dezoito e vinte lugares, micro-ônibus de até trinta passageiros e ônibus executivos de quarenta e quarenta e seis lugares passaram a compor frotas que antes eram dominadas por automóveis de passeio.
A flexibilidade permite à transportadora atender desde um traslado executivo para três pessoas até a operação completa de um evento com mil participantes.
Tecnologia entrou na operação e mudou o nível do serviço
A migração também foi acompanhada pela entrada da tecnologia na gestão da operação. Plataformas digitais de fretamento corporativo, como o próprio Fretadão e concorrentes que surgiram nos últimos anos, oferecem rastreamento em tempo real, otimização de rotas, métricas de pontualidade, indicadores de cumprimento de cronograma e relatórios automatizados para o departamento financeiro da empresa contratante. O cliente passou a ter visibilidade total da operação que antes ficava na caixa-preta da transportadora.
Esse nível de informação se tornou padrão até em contratos menores. Cliente que aluga uma van por dois ou três dias para um evento pontual já recebe link de acompanhamento do veículo, perfil do motorista responsável, telefone de contato direto e relatório de viagem ao final.
O serviço amadureceu e, em muitas regiões, o padrão de qualidade do fretamento ficou superior ao da locação tradicional, mesmo a um custo total competitivo.
O modelo tradicional ainda tem espaço, mas em nichos específicos
A locação sem motorista não desapareceu e dificilmente desaparecerá. Para quem aluga um automóvel particular para uso pessoal em uma viagem, para o profissional autônomo que precisa de um veículo por alguns dias, para a empresa que faz frota de longo prazo com seus próprios funcionários condutores devidamente habilitados e treinados, o modelo continua adequado.
O que mudou foi a percepção de que, para transporte de grupos em qualquer formato, profissional ou recreativo, o fretamento com motorista é geralmente o caminho mais eficiente.
Para empresas, a decisão passou de discussão operacional para discussão estratégica. Companhias que antes mantinham frota própria com motoristas contratados pelo regime CLT estão terceirizando a operação completa, eliminando custo de manutenção, depreciação, gestão de pessoal e exposição a passivos trabalhistas vinculados à atividade de motorista.
Para grupos não corporativos, a discussão é mais simples: vale a pena ou não economizar pequena diferença no preço para assumir o risco e o desgaste de fazer a logística por conta própria.
A resposta que o mercado vem dando, nos números agregados, é clara. O serviço com motorista incluído ganhou tração, ampliou capacidade e se tornou a opção padrão para deslocamento profissional de grupos no país. O modelo de locação tradicional, predominante por décadas, recua para nichos específicos onde ainda faz sentido.
A próxima fronteira da disputa, conforme indicam os movimentos do setor, será a integração tecnológica entre as plataformas digitais de gestão e as transportadoras com frota e operação consolidadas.