Façanha de aviador cachoeirense na 2ª Guerra Mundial viraliza na web

Por 6 de julho de 2021

A história é bastante antiga, de várias décadas atrás, mas nesta semana explodiu nas redes sociais. Uma façanha do piloto combatente da Força Aérea Brasileira (FAB) Danilo Moura, nascido em Cachoeira do Sul, se popularizou com uma narrativa em vídeo gravada pelo ator Nelson Freitas nas redes sociais. Tomado de emoção e visivelmente entusiasmado com a história, Freitas contou em detalhes como o tenente sobreviveu ao ter o avião abatido numa batalha durante a Segunda Guerra Mundial, na Itália, em 1945.

Muitos cachoeirenses manifestaram surpresa nas redes sociais porque não sabiam que o tenente Danilo Moura era cachoeirense. Nascido em 30 de julho de 1916, Danilo Marques Moura era o irmão caçula do também cachoeirense Nero Moura, comandante do 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCA) da FAB, no Rio de Janeiro. Faleceu Rio de Janeiro, em 14 de maio de 1990.

Tenente Danilo Moura nasceu em Cachoeira do Sul e ganhou destaque mundial por sua façanha de sobrevivência após ter avião abatido na Segunda Guerra Mundial / Foto: Divulgação

A HISTÓRIA

O herói de guerra Danilo Moura sobreviveu fugindo a pé e de bicicleta percorrendo 450 quilômetros em 30 dias durante a Segunda Guerra Mundial. Em 4 de fevereiro de 1945, depois de realizar sua 11ª missão, ele foi abatido por uma artilharia antiaérea nazifascista próximo a cidade italiana de Treviso.

Fazendo exatamente tudo ao contrário do que tinha sido orientado a fazer em caso de perigo, foi assim que o tenente Danilo Moura conseguiu sobreviver durante a Segunda Guerra Mundial e fugir das linhas inimigas andando ou arrastando uma bicicleta velha por 450 quilômetros em trinta dias na Itália.

Exímio piloto, o tenente Moura havia sido recrutado para servir junto ao pelotão brasileiro no norte da Itália. Ele integrava a mesma equipe que o Capitão Joel Miranda, e ambos foram abatidos.

Os dois, pela sua experiência foram designados para uma missão de ataque aos meios de escoamento dos alimentos e armas para os pelotões da Itália e da Alemanha no país. Bombardeariam uma ferrovia, destruiriam acessos e voltariam para a base. Foram, contudo, surpreendidos pelos disparos vindos de uma estrutura acoplado a um trem.

O capitão Joel Miranda, que se tornaria brigadeiro, saltou antes do seu avião. Danilo teve tempo de perceber que o colega estava caindo de cabeça para baixo e lutando para abrir o paraquedas. Teria que saltar também, pois sua aeronave estava tomada pela fumaça. Ao pular, uma rajada de vento o levou para longe da posição de Joel. Assim, não poderia assim ajudar ou ser ajudado pelo outro brasileiro.

Ao cair, ele próprio se machucou muito. Caiu no solo com o quadril e as pernas chocando-se nas pedras cobertas por uma fina camada de neve e rasgou a boca com o impacto em alguma superfície.

Teve o tempo apenas de sacar a arma e esperar. Observou e viu que não vinha ninguém. Algum tempo depois apareceu um italiano jovem, dizendo muita coisa de forma muito rápida e o brasileiro nada entendia. O rapaz mandou então que Danilo se escondesse debaixo de um monte de palha e feno e assim ele fez.

Cansado e machucado passou aquela noite debaixo da palha, pensando na família que deixara na cidade gaúcha de Cachoeira do Sul, tentou estimar a distância a que estava da sua base. Pensou em algo em torno de 350 a 500km. Sabia que não viriam resgatá-lo. Estava dentro do teatro de operações italiano.  Ajeitou o corpo no interior da montanha de feno e palha e dormiu, cansado e ferido.

Na manhã seguinte o garoto italiano voltou. Trazia comida e uma bebida quente. Danilo quase não podia falar, estava com a boca e a língua cortadas. Mas percebeu que o rapaz não oferecia riscos. Era provavelmente simpatizante das forças de resistência da Itália que lutavam contra os fascistas e nazistas. Trocou de roupas com o garoto, meteu um boné na cabeça, escondeu suas identificações e pegou a estrada para o sul. Em vez de seguir pelas estradas vicinais e cortas as fazendas como lhe haviam ensinado, fez o contrário, fazendo questão de ir a pé pela estrada principal. Decidiu também não ir para a Suíça, atravessando os montes ao norte e pedindo ajuda. Rumou ao sul em direção à base brasileira.

Já amigo do garoto, entregou-lhe alguns pertences, deu-lhe o paraquedas e prometeu: “assim que acabar a guerra eu passo aqui ver você e sua família”.

Danilo passaria por dentro da cidade de Podova, onde encontrou muitos soldados italianos e alemães. Buscando não chamar a atenção escondendo-se fez novamente o contrário, cumprimentava um a um com um balançar de cabeça. Ninguém desconfiou daquele homem maltrapilho e porcamente vestido, machucado e começando a emagrecer pela longa caminhada. O tenente Danilo tinha praticamente se transformado em um esqueleto ou fantasma.

Seu rosto machucado servia de desculpas para não responder às perguntas que achava que não deveria e assim foi indo, abrigando-se em estábulos, dormindo no frio inverno italiano onde conseguia se instalar, pedindo comida, algo quente para beber e cigarros nas casas dos colonos por onde passava. Desta forma percorreu os primeiros 120 km da sua jornada, chegando até Polesella, às margens do Rio Pó. Tinha que se preocupar agora em como atravessar as águas geladas e profundas do rio já que cruzar a ponte ele não conseguiria pela ausência de documentos.

Parado no alto de um barranco, sem se importar com nada, procurando um ponto para cruzar o rio, obviamente chamou a atenção de um guarda alemão. Carabina às mãos o guarda o interpelou, deu-lhe alguns bofetões e perguntou qualquer coisa. Como não entendeu nada e também não queria responder, Danilo mostrou-lhe a boca rasgada, a língua cortada e alguns dentes quebrados que insistiam em sangrar.

Confundido com algum vagabundo ou maltrapilho, foi deixado em paz. Se o alemão tivesse olhado os pés do tenente brasileiro e prestado atenção nos coturnos americanos que ele usava, ou visto em seu pulso o relógio da Força Aérea Brasileira, poderia ter acontecido algo mais grave.

Como ali não poderia ficar, Danilo desceu o rio em busca de um ponto para atravessá-lo. Já tarde da noite encontrou um morador local cortando lenha. Encararam-se e o rapaz foi ao encontro do brasileiro que inventou uma história qualquer de estar ferido procurando a casa dos seus familiares.

O italiano o convidou para jantar e já em segurança tirou sarro de sua história. “Ótima, mas olhe seus pés, você é aviador”. O lenhador tinha conseguido perceber mais que todos os soldados alemães que cruzaram com Danilo Moura pelo caminho. Assustado e com medo de ser entregue, o brasileiro ainda ameaçou uma fuga, mas o rapaz o acalmou: era simpático à resistência popular italiana, era um Partisan, e ajudaria Danilo.

O lenhador e sua família abrigaram Danilo Moura por dias, enquanto a resistência italiana providencia um passe para que ele ultrapassasse o rio de balsa como se fosse um trabalhador residente no outro lado. Deram-lhe roupas, criaram uma história, o colocaram em cima de uma bicicleta velha e o despacharam pela ponte. Para passarem, o camponês, que acompanharia Danilo durante a travessia que fariam, deu aos alemães alguns litros de grappa e assim foram. Cruzaram o rio e ainda andaram um pouco mais juntos, quando despediram-se com uma nova promessa do tenente aviador: “passada a guerra eu volto ver vocês”.

De bicicleta Danilo continuou a sua saga, passando por ao menos dois quartéis generais das forças alemãs, cruzou com tanques e soldados na estrada e prosseguiu em sua desfaçatez, cumprimentando a todos com sorrisos (em sua boca cheia de sangue e feridas) e acenos. Não foi parado uma única vez. Foi assim até Bolonha.

Em um trecho vendo uma carroça passar, acelerou sua bicicleta, e agarrou à lateral do veículo. Um soldado alemão, também de bicicleta, viu isso e começou a acelerar também. O brasileiro pensou que ali tinha acabado sua sorte. Ao se aproximar, o alemão estendeu as mãos e segurou-se também na madeira da carrocinha e ficaram ali, o brasileiro e o soldado alemão, cada qual de um lado da carroça por quilômetros, rindo um para o outro. Na brincadeira de olhar e sorrir para o alemão, percebeu que seu relógio estava à mostra. Foi quando congelou novamente. Se o alemão notasse ele seria fuzilado ali mesmo. No primeiro cruzamento que passaram Danilo soltou a carroça, e ainda agradeceu em italiano soltando um sonoro “grazzie”.

Os próximos dias seriam de desespero. Encurralada, a Alemanha bombardeava posições rebeldes à esmo, e dormindo nos campos, por muitas vezes o brasileiro teve medo de ser ferido. Foi, segundo seu relato, quando pensou em desistir e se entregar. Por sorte, novamente a sorte, na manhã em que iria entregar-se encontrou uma casa em que uma velha senhora varria a frente e o olhava sem parar. Discretamente ela apontou para sua porta e o mandou entrar. Estava a salvo, novamente entre os Partisans, a resistência civil italiana ao fascismo e nazismo.

Para justificar a sua presença na casa, os moradores inventaram uma história para os vizinhos de que estariam recebendo um parente que ficara mudo na guerra e que tivera a casa bombardeada em outra região. Chegaram a fazer uma festa para ele.

Após muitos dias, o tempo necessário para convencer os Partisans de que sua história era real e de que não era um espião nazista, tão absurda foi a forma como sobreviveu a tudo, foi levado à Cordilheira dos Apeninos junto a soldados de outras nacionalidades resgatados pelos rebeldes: americanos, ingleses e ele, o brasileiro. Mais uma espera: só sairiam em caminhada quando uma fina camada de neve começasse a cobrir o local. Assim estariam mais seguros.

Danilo foi entregue a um posto de controle inglês e devolvido após alguns dias à base brasileira. Dado como morto, sua recepção foi feita em festa pelos soldados e oficiais brasileiros. Seus feitos foram transformados em uma ópera pelos colegas, a Ópera do Danilo. Logo ele também reencontraria o Capitão Joel Miranda, outro que escapou de forma espetacular.

Terminada a guerra Danilo voltou para ver o jovem que o ajudou quando ele caiu. Seu paraquedas, dado ao rapaz, teve a seda transformada em vestido de noiva para a irmã do garoto. O lenhador que o ajudou e lhe deu uma bicicleta nunca mais foi encontrado. Sua espetacular fuga virou uma lenda entre os militares brasileiros e uma história de superação para soldados de outras nações.

 

Com informações do site Brasil Drummond

 

CONFIRA A NARRATIVA GRAVADA EM VÍDEO PELO ATOR NELSON FREITAS: