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Exame laboratorial derruba diagnóstico de covid-19 em cabeleireira autuada pela Prefeitura

Claudete Milbradt: exame laboratorial apontou que cabeleireira testou negativo para covid-19 / Fotos: Divulgação

Atualizada às 19h34min

O resultado de um exame laboratorial que ficou pronto nesta terça-feira (16) apontou que a cabeleireira cachoeirense Claudete Milbradt, de 48 anos, preliminarmente diagnosticada com a covid-19, na verdade nunca teve a doença. O laudo emitido pelo Laboratório Mombelli, de Cachoeira do Sul, atestou a ausência de anticorpos no organismo que atuam especificamente contra o novo coronavírus.

Claudete foi alvo de uma abordagem da Vigilância Sanitária de Cachoeira do Sul no último dia 5, sob acusação de ela, mesmo diagnosticada com a covid-19, estar atendendo em seu salão de beleza, no bairro São José, na zona norte da cidade. Por volta do meio-dia, fiscais da Prefeitura estiveram juntamente com a Brigada Militar no local, onde também fica a casa dela, e a autuaram por descumprimento de norma sanitária e por prática que, em tese, favorece a disseminação de doença contagiosa. O salão de beleza foi interditado pela Vigilância e um termo circunstanciado foi lavrado pela BM.

TESTES RÁPIDOS

Ainda abalada, Claudete não quis conceder entrevista ao Portal OCorreio. Ela só quis se manifestar por meio de um vídeo nas redes sociais, que deve ser divulgado em breve. A filha dela, universitária Aline Milbradt Leandro, 24 anos, relata que no início do mês sua mãe foi submetida a três testes rápidos, e o primeiro deu positivo.

No dia 3, uma equipe de enfermagem da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) foi até a casa da cabeleireira, que passou por outros dois testes rápidos. O segundo deu negativo, e o terceiro – que seria uma espécie de contraprova – atestou positivo novamente.

A SMS, então, determinou que Claudete deveria permanecer em isolamento domiciliar por pelo menos 14 dias. “No dia 3, quando a Secretaria veio até a casa dela e o exame deu negativo, disseram a ela (Claudete) ‘fica em paz porque tu tá bem longe de ter o corona’. Mas minha mãe falou ‘engraçado que na UPA deu positivo né?’. Eles falaram que tinha alguma coisa errada e aí fizeram (o teste) de novo e deu positivo. Minha mãe ainda insistiu que fosse feito mais um teste, mas eles disseram que não seria mais necessário, que ela estava mesmo com a covid”, relata Aline.

“NÃO REAGENTE”

Desconfiada com os resultados contraditórios dos testes rápidos da SMS, Claudete e sua família decidiram procurar um laboratório particular em busca de um diagnóstico mais conclusivo.

Já no sábado (6), dia seguinte à abordagem da Vigilância, Claudete solicitou e o Laboratório Mombelli foi até a casa dela, onde foi feita a coleta de material para análise de swab combinado de oro e nasofaringe. Como o exame foi feito durante o período de isolamento e, em tese, de suposta incubação do vírus, o resultado negativo pode servir como um diagnóstico mais preciso para apontar que Claudete nunca teve a doença, ao contrário do que apontaram o primeiro e o terceiro teste rápido, feitos pela SMS.

Após 12 dias de espera, o laudo do Laboratório Mombelli chegou nesta terça-feira. O resultado: “não reagente”. “A Prefeitura chegou a divulgar que uma mulher de 48 anos (minha mãe) havia sido curada da covid. Mas como alguém pode ter sido curado se nunca pegou a doença?”, questiona Aline.

 

“Armaram um ‘pega-ratão’ pra minha mãe”

No dia 5 de junho (sexta-feira) pela manhã, Claudete recebeu o telefonema de uma mulher em busca de atendimento no salão de beleza. Segundo Aline, Claudete teria informado a ela que não poderia atender porque sua agenda estava lotada até o final do mês. “Minha mãe inventou essa história porque não queria que ninguém soubesse desses diagnósticos ou suspeitas de Covid para que ela, os filhos e toda a família não fossem alvo de preconceito”, enfatiza Aline.

No entanto, por volta do meio-dia, a suposta cliente esteve no salão. Segundo Aline, Claudete estava de máscara e abriu a porta para informar que não poderia mesmo atender a mulher. “Ela (Claudete) iria informar isso conversando com a mulher por meio de uma grade de proteção junto à porta. No entanto, a mulher abriu essa grade e entrou de imediato no salão”, conta Aline. “A mulher entrou e saiu da casa da mãe e a Vigilância Sanitária já estava na calçada”, conta.

Logo em seguida aconteceu a abordagem da Vigilância Sanitária com o apoio da Brigada Militar. No entendimento de Aline, Claudete e toda a família, a ação da Vigilância Sanitária que resultou na interdição do salão e na autuação da cabeleireira foi algo orquestrado. “Foi um ‘pega-ratão’ da Prefeitura. Precisavam de um bode expiatório”, acusa Aline. Mais tarde, a família descobriu que a desconhecida que procurou o salão seria na verdade uma enfermeira.

Claudete teve o celular apreendido na ação e deverá responder criminalmente a inquérito policial e ação penal na Justiça.

Exame laboratorial com diagnóstico “não reagente” confronta resultados de testes rápidos feitos pela Secretaria da Saúde

“Depois de tudo isso, fomos hostilizados”

A filha de Claudete, Aline Milbradt Leandro, relata que depois da ação da Vigilância Sanitária, em torno de 15 pessoas, entre filhos, familiares e vizinhos de Claudete, passaram por exames que teriam apontado resultado negativo para o novo coronavírus. No entanto, ela afirma que os familiares já sofreram as consequências da repercussão que teve o caso.

“De pois de tudo isso, já fomos hostilizados, inclusive em supermercados. Minha mãe tentou se preservar ao máximo, mas tudo aconteceu da pior forma possível”, relata.

Aline inclusive rebate conclusões do prefeito Sergio Ghignatti, de que Claudete não poderia estar fazendo almoço por estar diagnosticada com a covid-19. O prefeito concordou com isso quando questionado sobre esse detalhe em torno do caso em uma rádio de Cachoeira, pois no momento da abordagem da Vigilância, Claudete preparava o almoço para ela e o namorado. “Mas como que a minha mãe não poderia estar fazendo almoço, se ela e o namorado estavam em isolamento domiciliar?”, questiona a filha.

As consequências jurídicas de todo o episódio ainda estão sob avaliação da família, que não descarta a possibilidade de buscar reparação. “Foi uma situação muito triste, que nunca iremos esquecer”, lamentam.

 

Prefeitura diz não ter conhecimento do exame negativo da cabeleireira

O diretor da Secretaria Municipal da Saúde, Diogo Moraes, fez contato com o Portal OCorreio no final da tarde desta quarta-feira (17) para dizer que a Prefeitura de Cachoeira do Sul, até o momento, não tem conhecimento do resultado do exame laboratorial que atestou negativo para covid-19 na cabeleireira Claudete Milbradt, de 48 anos. Ele ressalta que o período de isolamento domiciliar de Claudete está próximo de terminar.

No entanto, a universitária Aline Milbradt Leandro fez contato para rebater a informação, e apresentou um laudo da própria SMS que atesta que o isolamento de sua mãe encerrou-se nesta terça-feira (16).

O secretário municipal da Saúde, Roger Gomes, que também é biomédico, adotou cautela ao comentar o caso. Ele salienta que, após um paciente estar recuperado, exames de biologia molecular podem dar resultado “não detectável”. “É importante salientar que após um paciente estar recuperado o exame de RT PCR dá ‘não detectável’, explica o secretário.

Laudo da SMS atesta que Claudete Milbradt concluiu os 14 dias de isolamento nesta terça-feira

FIQUE POR DENTRO

  • O RT-PCR utiliza técnicas de biologia molecular para detectar se o vírus SARS-CoV-2 está presente no corpo. É o exame considerado “padrão-ouro” para diagnóstico e é indicado para quem está com sintomas da covid-19.
  • O PCR serve para detectar a presença do vírus no organismo do paciente. Analisando o material coletado do nariz e da garganta do paciente, o exame consegue identificar a presença do RNA do vírus.

 

 

NOTA DO EDITOR (publicada às 17h05min): 

Inicialmente, chegou a ser noticiado que a cabeleireira Claudete Milbradt teria procurado o Laboratório Mombelli e o exame teria sido feito no estabelecimento. No entanto, a família de Claudete entrou em contato com a redação para esclarecer que a cabeleireira fez contato e foi o laboratório quem enviou equipe para atendimento domiciliar. O equívoco já está corrigido no texto. 

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