Entrevista: saga Charrua inspira HQ inédita

Cachoeira do Sul, · --°C

A história e a memória do povo indígena Charrua estarão no centro de uma nova produção em quadrinhos que começa a ser desenvolvida em Porto Alegre. Intitulada “Charrua”, a HQ inédita de ficção histórica foi selecionada no edital Fumproarte de Produção Artística de 2025, da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa da Capital, e tem lançamento previsto para agosto de 2026.

Inspirada nas origens, na cultura e no trágico destino do povo Charrua — ancestral dos territórios que hoje compreendem o sul do Brasil, o Uruguai e parte da Argentina —, a obra terá roteiro de Rodinério da Rosa, ilustração de Moacir Martins e consultoria do historiador indígena Kaingang Danilo Braga. A proposta é construir uma narrativa de alto valor artístico e cultural, fundamentada em pesquisa histórica e antropológica.

O roteirista Rodinério da Rosa concedeu entrevista ao programa Vale Informação – da Rádio Vale FM 99.1 -, na manhã desta terça-feira (3):

O eixo central da HQ será a trajetória de Cayuare, um guerreiro fictício representativo da etnia charrua. Por meio de sua história, o leitor será conduzido por um panorama imersivo da vida e da resistência desse povo, até os primeiros confrontos com os colonizadores europeus e o processo de extermínio que se seguiu. A ideia é unir rigor histórico e narrativa visual envolvente, aproximando o público de um capítulo fundamental da formação do sul do continente.

Além do lançamento comercial, o projeto prevê uma importante contrapartida social. Após a publicação, 200 exemplares serão distribuídos gratuitamente para escolas públicas, bibliotecas comunitárias, centros culturais e espaços de preservação da memória indígena. A distribuição ocorrerá majoritariamente na região metropolitana de Porto Alegre, mas também alcançará outras cidades do Rio Grande do Sul e gibitecas do país.

Outra frente de acessibilidade será a disponibilização da obra em formato de audiolivro descritivo, voltado a pessoas com deficiência visual.

Os autores envolvidos acumulam trajetória consolidada nas artes gráficas. Moacir Martins publicou sua primeira HQ nos anos 1990, na revista “Histórias Sobrenaturais”, adaptando cartas de ouvintes do programa de rádio homônimo. Na mesma década, foi selecionado quatro vezes para o Salão Internacional de Desenho para Imprensa de Porto Alegre, com trabalhos como “Pé de Unha” e “Luz e Sombra”, além de ilustrações. Colaborou com a HQ “Natureza Humana”, para a revista Porto e Virgula, e por vários anos atuou como ilustrador e quadrinista da revista “Bodisatva”, do Centro de Estudos Budistas de Porto Alegre.

Ao longo da carreira, Moacir também publicou em jornais locais como “Já Porto Alegre” e “Oi Menino Deus”, além de veículos sindicais como “Versão dos Jornalistas”, do Sindicato dos Jornalistas do RS, e “Sinergisul”, dos eletricitários. Nos anos 2000, colaborou por longo período com a revista Vox Médica, do sindicato médico SIMERS. Em 2002, foi ilustrador da série “O Continente de São Pedro”, da RBS TV, e das revistas “Super Interessante – Aventura na História”. Em 2006, atuou como desenhista na execução de um painel para o Museu sobre a História Geológica do Rio Grande do Sul, da Unisinos, em São Leopoldo.

Também editou e publicou HQs na revista Picabu nº 4, pela editora Bestiário, e foi co-criador e editor do Projeto Esqueleto de Revistas em Quadrinhos, em 2015. Atualmente, produz com Rodinério da Rosa as ilustrações para a revista em quadrinhos “Brett”, publicada originalmente no Rio Grande do Sul e, posteriormente, na revista italiana Skorpio. A dupla também trabalha como colorista para uma edição especial comemorativa dos 50 anos do personagem Ken Parker, de Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, para editora italiana.

Rodinério da Rosa, roteirista de “Charrua”, é videomaker, editor, desenhista e roteirista de 64 anos. Iniciou a trajetória profissional como diagramador em jornais aos 16 anos. Em 1984, na cidade de Rio Grande, produziu o fanzine “Mutação”. No ano seguinte, mudou-se para Porto Alegre, onde se tornou um dos membros fundadores da GRAFAR, associação que reúne cartunistas, desenhistas de HQ e artistas gráficos do Rio Grande do Sul.

Entre o fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, editou quatro números da revista independente “Made in Brasil Quadrinhos”, na qual também escrevia e desenhava. Em 2001, a convite da Editora Escala, de São Paulo, editou a revista de humor “Talebang”, com tiragem nacional, paródia da guerra do Afeganistão iniciada pelos Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro.

Rodinério participou ainda da exposição de cartuns do 3º Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, em 2004. Um de seus cartuns, sobre a exploração da água por grandes corporações, foi selecionado pela Human Rights, da Suíça, para integrar uma cartilha impressa da entidade. Ao longo da carreira, participou de diversas exposições junto à Grafar.

É autor de projetos gráficos como “Zaratustra”, “Dioniso”, “Almanaque do Terror” e “Mundo Gibis”. Desde 2021, edita de forma independente autores nacionais e internacionais pelo selo Da Rosa Estúdio, responsável por títulos como “Brett”, “Exomens”, “Lampião”, “Boa Tirada”, “Artbook Julio Shimamoto” e “Freeman”, série sobre a escravidão nos Estados Unidos produzida por artistas italianos. “Brett”, seu principal personagem, passou a ser publicado na Itália desde 2023, tornando Rodinério o primeiro autor brasileiro a ter personagem próprio lançado como série na revista italiana Skorpio.

Com “Charrua”, a dupla volta-se agora para uma narrativa histórica ancorada na memória indígena do sul do continente, aliando experiência artística, pesquisa e compromisso cultural em uma obra que busca dialogar com leitores de diferentes gerações.

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