Entre a Copa e as Urnas, um país espera por nós – por Ana Pozzobon

Cachoeira do Sul, · --°C

Ainda bem que a Copa acabou. A frase parece provocação. Não é.

É um convite para o Brasil voltar à realidade. Perdemos a Copa. Que não percamos a democracia.

Durante semanas, milhões de brasileiros viveram uma única paixão. Vestiram a camisa, discutiram escalações, comemoraram vitórias e sofreram derrotas. O futebol tem esse poder. Une o país. Desperta orgulho. Faz sonhar.
Mas também ocupa um espaço gigantesco na atenção da sociedade.

Agora, sem bola rolando, resta o jogo que realmente define o futuro de todos nós.

O Brasil enfrenta desafios que nenhum atacante resolve. A inflação pesa no bolso. A insegurança preocupa famílias. A saúde continua esperando respostas. A educação precisa recuperar o tempo perdido. A máquina pública exige eficiência. O desenvolvimento não pode continuar sendo promessa de campanha.

Nada disso será decidido dentro de um estádio. Será decidido nas urnas.

O voto vale muito mais do que uma taça no futebol, embora seja paixão.

Curiosamente, a história brasileira sempre revelou uma relação intensa entre grandes eventos populares e momentos políticos importantes. O entretenimento mobiliza emoções. A política exige reflexão. Uma fala ao coração. A outra deve passar pela consciência.

É justamente aí que mora o perigo. Quando a emoção ocupa todos os espaços, sobra pouco tempo para pensar no país.

O futebol nunca foi o problema. O problema é quando a euforia pelo espetáculo supera o compromisso com a cidadania.

A democracia brasileira nasceu do esforço de milhões de pessoas que lutaram para recuperar o direito de escolher seus governantes. A Constituição de 1988 consolidou essa conquista. Cada eleição reafirma esse compromisso.
Votar nunca deveria ser um ato automático. Muito menos um ato de torcida.

Político não é ídolo. Candidato não veste camisa de clube. Ele administra recursos públicos. Decide prioridades. Influencia diretamente a vida de quem trabalha, produz, paga impostos e espera serviços de qualidade.
Por isso, a próxima eleição não pode ser disputada com gritos de arquibancada.

O eleitor precisa fazer perguntas.

Quem promete é capaz de entregar?

Quem fala em mudança já mostrou resultados?

Quem pede confiança merece confiança?

A derrota da Seleção certamente entristeceu milhões de brasileiros. Mas talvez tenha produzido um efeito positivo. Obrigou o país a desligar a televisão do espetáculo e olhar pela janela. Lá fora, o Brasil continua esperando soluções. A Copa termina. A realidade não.

E o resultado mais importante para o futuro do país não será conhecido ao final de noventa minutos. Será conhecido quando cada brasileiro entrar na cabine de votação.

Porque existe um campeonato que acontece a cada eleição. E dele ninguém pode ser apenas torcedor. Todos somos titulares. E todos somos responsáveis pelo placar final.

Ana Pozzobon – Jornalista

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