EL NIÑO SE PROJETA EM 2026 | Projeções indicam alta probabilidade de formação do fenômeno ao longo do ano, com impactos mais significativos previstos para o segundo semestre / Foto: Inmet/Getty Images
A possibilidade de formação de um novo episódio do El Niño ao longo de 2026 já acende um sinal de atenção no Rio Grande do Sul, especialmente diante do histórico recente de eventos extremos no Estado. Projeções climáticas apontam aumento consistente na probabilidade de desenvolvimento do fenômeno, que está associado a períodos de chuva acima da média e maior risco hidrológico.
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño faz parte do chamado El Niño-Oscilação Sul (ENOS), um dos principais moduladores do clima global. O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial, o que altera a circulação atmosférica e influencia diretamente os padrões de chuva em diversas regiões do planeta.
No Brasil, o Rio Grande do Sul figura entre as áreas mais sensíveis a essas mudanças. Isso ocorre porque, durante episódios de El Niño, há intensificação do transporte de umidade da Amazônia para o Sul do país. Esse fluxo reforça a atuação de sistemas meteorológicos, como frentes frias e áreas de baixa pressão, favorecendo a formação de tempestades frequentes e acumulados elevados de chuva.
Atualmente, o Pacífico equatorial ainda se encontra em condição de neutralidade, após o enfraquecimento da La Niña. No entanto, dados recentes já indicam aquecimento gradual das águas, sinalizando uma possível transição nos próximos meses. As estimativas mais recentes do Centro de Previsão Climática (CPC), dos Estados Unidos, apontam cerca de 80% de chance de manutenção da neutralidade até o fim do primeiro semestre. A partir do trimestre entre maio e julho, a probabilidade de formação do El Niño supera 60% e pode ultrapassar 90% no decorrer do segundo semestre.
Com clima subtropical úmido, o Rio Grande do Sul já apresenta, naturalmente, chuvas bem distribuídas ao longo do ano. Ainda assim, a atuação do ENOS pode alterar esse padrão, ampliando a frequência e a intensidade das precipitações.
Durante episódios de El Niño, a combinação entre correntes atmosféricas em diferentes níveis da atmosfera intensifica o transporte de umidade e fortalece o jato subtropical — mecanismo que contribui para a formação de eventos de chuva persistentes. Esse cenário costuma resultar em volumes acima da média em praticamente todo o território gaúcho.
Estudos baseados em eventos históricos indicam que, em anos de El Niño forte, há predominância de anomalias positivas de chuva na Região Sul, enquanto Norte e Nordeste tendem a registrar volumes abaixo da média. No Rio Grande do Sul, os maiores desvios costumam ocorrer entre o final do inverno e a primavera, especialmente nas regiões noroeste e central.
Para o trimestre entre maio e julho de 2026, o Inmet já projeta maior probabilidade de chuvas acima da média no Estado, enquanto as temperaturas devem permanecer próximas dos padrões históricos.
A preocupação ganha força diante da memória recente da enchente de 2024, considerada a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul. Na ocasião, mais de 180 pessoas morreram e cerca de 95% dos municípios foram afetados. Em Porto Alegre, o nível do Guaíba atingiu 5,37 metros, provocando o colapso do sistema de proteção contra cheias.
Embora o El Niño tenha contribuído para aquele cenário, especialistas apontam que o desastre foi resultado da combinação de vários fatores, como o aquecimento do Oceano Atlântico e a persistência de sistemas atmosféricos que mantiveram a instabilidade por longos períodos.
Agora, a possibilidade de um novo episódio — que pode atingir intensidade de forte a muito forte, segundo análises da Climatempo e de centros de pesquisa — reacende o alerta, embora não haja indicação de repetição automática de um evento extremo semelhante.
Projeções indicam que o El Niño deve se consolidar principalmente no segundo semestre, com maior impacto entre agosto e outubro. Nesse período, a probabilidade de o fenômeno estar ativo pode chegar a cerca de 90%, com chances superiores a 50% de atingir categoria forte.
Para o sul do Estado, esse intervalo coincide com aumento significativo da chuva, incluindo episódios mais volumosos e persistentes. A tendência é de maior risco de cheias de rios, alagamentos e impactos tanto em áreas urbanas quanto rurais.
O principal efeito esperado é o aumento da vulnerabilidade hidrológica, já que a sequência de dias chuvosos pode saturar o solo e elevar rapidamente os níveis dos cursos d’água.
Diante desse cenário, meteorologistas reforçam a importância do acompanhamento constante das condições climáticas. A interação entre o aquecimento do Pacífico e do Atlântico pode potencializar os impactos, exigindo atenção redobrada ao longo dos próximos meses.
O Inmet destaca que o monitoramento das variáveis oceânicas e atmosféricas é fundamental para antecipar riscos e orientar ações de prevenção. A recomendação é que órgãos públicos e a população acompanhem regularmente os boletins atualizados, especialmente à medida que o segundo semestre se aproxima.
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