
Dona Jurema, 68 anos, mora em Cachoeira do Sul e tomou a decisão de marcar a consulta com ortopedista depois de mais de seis anos convivendo com dor no joelho. Ela contava aos filhos que era só o peso da idade, que passava com pomada.
Quando o desconforto começou a atrapalhar a caminhada até a feira, no Centro, ela procurou um médico pela primeira vez. O diagnóstico foi artrose avançada. A cartilagem já havia se desgastado a ponto de exigir prótese. Se tivesse procurado ajuda quatro anos antes, talvez o quadro tivesse resposta com fisioterapia, perda de peso e medicação.
A história dela não é isolada. Na região central do Rio Grande do Sul, consultórios de ortopedia têm recebido um volume crescente de pacientes na faixa dos 60 e 70 anos que passaram boa parte da vida adulta ignorando sintomas ortopédicos. O cenário tem explicação demográfica. Cachoeira do Sul, segundo o Censo de 2022, tem 80.070 habitantes, com 16,5% dessa população acima dos 65 anos.
A pirâmide etária do município está mais sênior do que a média gaúcha, acompanhando uma tendência que se repete em várias cidades do interior, onde os jovens migraram para centros maiores e quem ficou envelheceu junto com a terra.
Esse envelhecimento tem consequências clínicas diretas. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 10% dos homens e 18% das mulheres acima dos 60 anos apresentam algum grau de artrose, e o joelho é uma das articulações mais afetadas.
Em idosos acima de 70 anos, a prevalência de artrose relevante no joelho chega a um terço ou metade da população, segundo dados apresentados pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
O custo do diagnóstico tardio
“O problema está no intervalo entre os primeiros sintomas e a primeira consulta. Dor leve ao subir escada, estalos na articulação, rigidez matinal que melhora depois dos primeiros passos. Sinais que o paciente tende a atribuir à idade, à jornada pesada ou ao esforço acumulado do trabalho rural”, explicou Dr. Ulbiramar Correia, médico de joelho em Goiânia.
A demora em procurar avaliação especializada reduz o leque de opções terapêuticas. Quem chega cedo ainda pode se beneficiar de fisioterapia, reabilitação funcional, controle de peso, medicação oral e infiltrações articulares. Quem chega tarde muitas vezes tem como única resposta viável o procedimento cirúrgico.
Os números do DATASUS mostram essa pressão crescente sobre o sistema. Estudo publicado em 2024 no Brazilian Journal of Health Review, analisando o período entre 2014 e 2023, identificou que depois da queda de 32% durante a pandemia de Covid-19, o volume de artroplastias de joelho no Brasil se recuperou com aumento de 52% no período pós-pandemia, superando os níveis anteriores a 2020.
Parte desse salto é o represamento de cirurgias eletivas adiadas durante o isolamento. Mas a outra parte, estrutural, é o avanço da artrose em uma população que envelhece mais rápido do que o sistema de saúde consegue absorver.
Quando o joelho não responde mais ao tratamento conservador
A artroplastia total de joelho é considerada segura e tem índices altos de satisfação. Dados de acompanhamento de longo prazo indicam que mais de 90% das próteses implantadas continuam funcionais após 15 a 20 anos.
Ainda assim, é um procedimento de porte, com processo de reabilitação que se estende por meses. A maturação completa da prótese leva cerca de um ano. Nesse intervalo, o osso se integra aos componentes, a musculatura se adapta à nova mecânica articular e o sistema nervoso recalibra os sinais de propriocepção.
A decisão de operar depende de uma avaliação criteriosa. Não se indica prótese apenas pelo exame de imagem. Pesa no quadro o nível de dor, a limitação funcional relatada pelo paciente, o impacto no dia a dia, a idade, as comorbidades.
Por isso, quando o ortopedista conclui que a articulação já não responde ao tratamento conservador, a orientação costuma ser discutir com calma os próximos passos e, quando a indicação é confirmada, avaliar onde realizar a cirurgia de prótese de joelho com volume cirúrgico suficiente e equipe preparada para o acompanhamento pós-operatório.
O volume importa. Estudos brasileiros mostram que cirurgiões com maior experiência anual em artroplastia têm desfechos clínicos melhores e índice mais alto de satisfação dos pacientes.
Essa variável é pouco discutida no Brasil, onde muitos serviços realizam um número pequeno de procedimentos por ano, mas ela pesa no resultado funcional que o paciente vai obter nos 15 ou 20 anos seguintes.
A coluna envelhece junto
Joelho e coluna costumam caminhar juntos. O paciente que chega ao consultório com artrose avançada no joelho, quase sempre, tem também algum grau de degeneração discal, lombalgia crônica ou quadros pontuais de ciatalgia.
A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, conduzida pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, mostrou que 21,1% dos adultos brasileiros relataram algum problema crônico de coluna. Levantamentos posteriores à pandemia apontaram que o índice subiu para cerca de 33,9%, influenciado pelo aumento do sedentarismo e pelas condições improvisadas de trabalho remoto.
A OMS estima que a lombalgia afetou 619 milhões de pessoas em 2020, com projeção de chegar a 843 milhões até 2050. No Brasil, números do IBGE indicam que aproximadamente 5,4 milhões de brasileiros convivem com hérnia de disco.
Os dados do Ministério da Previdência Social de 2024 mostram que mais de 172 mil trabalhadores precisaram se afastar de suas funções por causa de hérnia de disco, o que coloca a condição entre as principais causas de concessão de auxílio-doença no país.
Como aponta Dr. Aurélio Arantes, ortopedista de coluna em Goiânia, nem toda hérnia de disco exige bisturi. A literatura é consistente em afirmar que a maioria dos casos tem evolução favorável com tratamento conservador.
Um levantamento divulgado recentemente por especialistas mostra que cerca de 90% dos pacientes respondem bem à combinação de fisioterapia, medicação e reabilitação funcional.
A cirurgia fica reservada para os quadros em que o controle da dor falhou, existe déficit motor relevante, há dor radicular associada à estenose óssea foraminal ou instala-se uma síndrome de cauda equina, que é considerada emergência médica.
Do corte aberto ao procedimento por vídeo
Quando a indicação cirúrgica é confirmada, a técnica mudou de forma significativa nas últimas duas décadas. A cirurgia aberta tradicional, com incisões grandes e afastamento extenso das estruturas musculares, foi perdendo espaço para abordagens que preservam a anatomia.
A discectomia endoscópica lombar é hoje uma das opções mais consolidadas. A técnica usa uma cânula estreita, com microcâmera de alta resolução e micropinças, para retirar apenas o fragmento de disco que está comprimindo a raiz nervosa, sem abrir planos musculares extensos.
A vantagem clínica está no tempo de recuperação. Incisões menores resultam em menos sangramento, menos tempo de internação e retorno mais rápido às atividades cotidianas. A técnica exige treinamento específico e curva de aprendizado, o que significa que nem todo cirurgião de coluna a realiza.
Centros de referência no Brasil começaram a incorporar o método nos últimos dez anos, embora a Coreia do Sul e a Alemanha já pratiquem a cirurgia endoscópica desde os anos 1990.
Para o paciente que está pesquisando opções de tratamento, vale entender a diferença antes de fechar um plano cirúrgico. A cirurgia endoscópica de hérnia de disco está no rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar desde 2021, o que tornou a cobertura obrigatória por toda a rede de convênios e seguros.
Ainda assim, nem todo serviço opera dessa forma, e a escolha do profissional habilitado muda o perfil de recuperação pós-operatória.
Como avaliar o profissional antes da consulta
A pressão por cirurgias ortopédicas em pacientes maduros tem um efeito colateral previsível. Aumenta também o volume de indicações cirúrgicas apressadas, sem esgotar o tratamento conservador, e a oferta de serviços de qualidade variável. O paciente leigo, que sente dor e quer resposta, tem dificuldade em separar quem está pedindo exames pertinentes de quem está sugerindo cirurgia desnecessária.
Alguns sinais ajudam. Formação declarada no CRM, com registro de qualificação de especialista (RQE) na área específica. Vínculo com hospitais conhecidos na região e volume anual de cirurgias realizadas.
Disposição do médico em explicar por que determinada conduta é indicada, quais as alternativas e qual o prognóstico em cada cenário. Uma segunda opinião, quando o caso é cirúrgico, nunca ofende o primeiro profissional. É prática comum e recomendada pela própria literatura médica.
Os guias públicos também cumprem papel de orientação. Levantamentos independentes sobre os ortopedistas mais bem avaliados em diferentes capitais oferecem um ponto de partida para quem está começando a busca e quer cruzar informações sobre formação, subespecialidade e retorno dos pacientes atendidos. Não substituem a consulta, mas ajudam a reduzir o tempo de pesquisa.
O que muda quando o paciente procura ajuda cedo
A medicina ortopédica moderna não se resume mais a operar ou não operar. O intervalo de opções cresceu. Reabilitação estruturada, infiltrações de ácido hialurônico, controle do peso corporal, fortalecimento muscular específico, mudanças ergonômicas no trabalho, adequação da atividade física.
Cada kg a mais no corpo equivale a cerca de 4 kg de carga adicional sobre o joelho, dado repetido com frequência pelos especialistas para explicar por que a conversa com o ortopedista quase sempre envolve também nutricionista e fisioterapeuta.
O que o paciente ganha ao procurar ajuda cedo é justamente esse leque. Dor crônica de coluna e de joelho não é sentença. Na maioria dos casos, quando o diagnóstico entra logo no radar, o tratamento conservador funciona. A cirurgia continua existindo e tem resultados excelentes quando indicada no momento certo, mas ela deixa de ser o único caminho.
Para uma cidade com o perfil demográfico de Cachoeira do Sul, com população em envelhecimento acelerado e economia que ainda cobra esforço físico de boa parte dos trabalhadores, o tema deixou de ser circunstancial. É saúde pública.
E começa com uma decisão simples, que muitos pacientes adiam por anos. Marcar a consulta quando a dor começa, não quando ela impede de andar.