
Todo mês de dezembro traz campanhas, doações, fotos bem produzidas e discursos bonitos. Passado o mês, tudo some. A pobreza permanece, a exclusão continua e a desigualdade segue intacta.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman alertou que vivemos em uma sociedade líquida, na qual as relações são frágeis, descartáveis e condicionadas ao conforto individual. Nesse ambiente, a empatia vira produto sazonal. Ela é usada quando dá ibope, rende aplauso, cabe numa legenda de rede social.
A filósofa alemã Hannah Arendt lembra que a banalização do mal nasce justamente da incapacidade de se colocar no lugar do outro. Ela considera que, quando o sofrimento alheio vira rotina, está dada a condição para a destruição da individualidade e para a manipulação das massas com o objetivo de eliminar os divergentes.
O brasileiro Paulo Freire defendeu que a solidariedade não se confunde com assistencialismo. Ajudar sem questionar as causas da miséria é manter tudo como está. Freire acreditava em uma solidariedade como ato político e pedagógico visando à transformação por meio do diálogo e da práxis social.
O filósofo lituano Emmanuel Levinas reforça essa ideia ao dizer que a ética nasce no rosto do outro. Não no discurso ou na intenção, mas no encontro real com a alteridade do próximo. É preciso ver o outro não como número, estatística ou problema social, mas como responsabilidade pública e particular.
Hoje, no entanto, o que se vê é uma empatia seletiva, que escolhe a quem dar atenção, que se sensibiliza por tragédias distantes, mas ignora o vizinho. Que chora na TV, mas vira o rosto na rua.
A empatia não se mede por campanhas de fim de ano, mas por políticas públicas, escolhas coletivas e atitudes contínuas. Ela está no respeito ao trabalhador, no cuidado com o idoso, na proteção da criança. Resumindo: empatia é enfrentar o que falta para o outro.
– Ronaldo Tonet