
A recente operação policial nas favelas do Rio de Janeiro expôs um drama que o Brasil não consegue resolver: como combater o crime sem multiplicar tragédias. Os números de mortos e feridos são impressionantes e reacendem o debate sobre a letalidade policial, que, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é uma das mais altas do mundo.
Especialistas alertam que o uso excessivo da força, mesmo quando dirigido a facções armadas, revela falhas de planejamento e de inteligência. O sociólogo Ignacio Cano, referência no tema, lembra que a guerra às drogas, tal como é conduzida atualmente, acaba se tornando uma guerra contra os pobres. Defensores das operações, por sua vez, afirmam que o Estado não pode se omitir diante do domínio de grupos criminosos que impõem suas próprias regras, cobram “pedágio” e aterrorizam moradores honestos. Para eles, a ausência da polícia seria ainda mais prejudicial.
A questão ética é inevitável. Até que ponto a legítima defesa da sociedade justifica mortes de civis, invasões de casas e tiroteios próximos a escolas e creches? A fronteira entre a ação necessária e o abuso se confunde nas vielas, onde o morro se transforma em campo de batalha e a vida cotidiana é interrompida. A imagem que o mundo recebe é a de um país que ainda não encontrou equilíbrio entre autoridade e humanidade.
A opinião pública está dividida. Quem mora fora do Rio tende a apoiar as operações, acreditando que elas são um mal necessário para conter o crime. Já entre os moradores das comunidades, a percepção é outra: a operação é mais uma visita do medo que não traz paz nem altera o cotidiano de violência.
Enquanto isso, os criminosos sobreviventes se reorganizam para um novo ciclo de crimes, que terminará, inevitavelmente, em confronto com a polícia. Para as comunidades, o dia seguinte é de luto e desconfiança; para os governantes, de justificativas e promessas. Já o restante do Brasil, assiste, perplexo, a essas cenas com os mesmos personagens, sem que o enredo brutal seja reescrito.
Poetando
por Zé da Praça
Dia seguinte
O sol nasce e o morro cala,
ninguém sabe o que dizer…
A morte parece que fala,
mas quem pode responder?