EL NIÑO É DADO COMO CERTO | Fenômeno climático previsto para o próximo trimestre deve provocar chuvas acima da média e elevar risco de enchentes no Rio Grande do Sul / Foto: Milos Silveira/Arquivo
As projeções climáticas para os próximos meses reforçam um cenário de atenção para o agronegócio gaúcho. Dados do APEC Climate Center (APCC), da Coreia do Sul, indicam 100% de probabilidade de ocorrência do fenômeno El Niño entre julho, agosto e setembro de 2026, com praticamente certeza de manifestação em intensidade forte. As informações integram o Boletim Trimestral do Conselho Permanente de Agrometeorologia Aplicada do Rio Grande do Sul (Copaaergs), coordenado pela Secretaria Estadual da Agricultura. O relatório utiliza previsões baseadas no modelo estatístico do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
O principal impacto esperado para o Rio Grande do Sul é o aumento expressivo das chuvas, especialmente na metade Norte do Estado. O boletim alerta para a possibilidade de eventos extremos associados ao excesso de precipitação, incluindo enchentes, alagamentos e inundações. Além do risco hidrológico, o cenário também traz desafios para a produção agropecuária. Embora o inverno ainda possa registrar ondas de frio na primeira metade da estação, a tendência geral aponta temperaturas ligeiramente acima da média ao longo do trimestre, sobretudo nas regiões mais ao norte do território gaúcho.
A combinação entre calor acima do normal e excesso de umidade preocupa técnicos e produtores devido ao aumento do ambiente favorável à proliferação de doenças fúngicas nas lavouras. O relatório recomenda intensificação do monitoramento fitossanitário e adoção de medidas preventivas nas culturas de inverno. Por outro lado, o aumento da nebulosidade e das temperaturas tende a reduzir o risco de geadas tardias, fator que pode beneficiar culturas sensíveis durante fases críticas de desenvolvimento.
O boletim traz uma série de orientações técnicas para minimizar perdas e adaptar o manejo agrícola ao comportamento climático previsto para os próximos meses. Nas culturas de inverno, a recomendação é priorizar cultivares mais resistentes a doenças e variedades com maior tolerância à germinação pré-colheita. Técnicos também sugerem atenção especial ao momento da colheita e cautela nos investimentos em insumos, considerando que anos de El Niño costumam apresentar comportamento produtivo diferente dos períodos de La Niña.
Para o arroz irrigado, a orientação é reforçar sistemas de drenagem e acelerar os trabalhos de preparo das áreas, buscando evitar prejuízos causados pelo excesso de chuva durante o estabelecimento inicial das lavouras. Já para soja e milho da safra de verão, o relatório recomenda escalonamento da semeadura, diversificação de ciclos e respeito ao zoneamento agrícola, além de manejo cuidadoso da adubação diante da maior variabilidade climática.
Na pecuária, o excesso de umidade também exige atenção. O boletim orienta produtores a monitorarem as condições sanitárias dos rebanhos, reduzirem o pisoteio excessivo nas pastagens e ampliarem os cuidados com conforto animal e suplementação alimentar.
A confirmação de um El Niño forte recoloca o clima como um dos principais fatores de risco para o setor agropecuário gaúcho em 2026. Depois dos impactos severos registrados nos últimos episódios do fenômeno, especialmente nas enchentes históricas de 2024, produtores e técnicos acompanham com cautela os próximos prognósticos.
O cenário reforça a necessidade de planejamento antecipado, manejo mais conservador e ampliação das estratégias de mitigação de perdas no campo, especialmente em regiões historicamente mais vulneráveis aos excessos de chuva, como é o caso de Cachoeira do Sul e arredores.
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