
O mercado global de fertilizantes voltou ao centro das atenções do agronegócio diante de uma nova disparada nos preços dos insumos, movimento que começa a impactar o planejamento da safra 2026 em diversos países produtores de grãos. A elevação dos custos tem levado agricultores a reavaliar estratégias de manejo, reduzir investimentos e até considerar mudanças no uso das áreas cultivadas.
A pressão sobre o setor ganhou intensidade nos últimos meses em meio às tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã. O conflito afetou o fluxo de mercadorias pelo Estreito de Ormuz, uma das principais rotas para o transporte de produtos essenciais à fabricação de fertilizantes, como ureia, amônia e enxofre.
Dados da Comissão Europeia apontam que o preço da ureia acumulou alta de 55% desde o início da crise, no fim de fevereiro. Em alguns mercados, a valorização foi ainda mais expressiva. Na Argentina, por exemplo, a cotação chegou próxima de US$ 1 mil por tonelada, cerca do dobro do valor observado antes do agravamento das tensões internacionais.
Embora a assinatura de um acordo provisório entre os dois países, anunciada em junho, tenha alimentado expectativas de normalização do comércio marítimo na região, especialistas avaliam que os fertilizantes já vinham enfrentando um cenário de forte pressão. Problemas logísticos herdados da pandemia, custos elevados de energia e os reflexos prolongados da guerra entre Rússia e Ucrânia continuam influenciando a formação dos preços globais.
A preocupação se espalha por importantes regiões agrícolas. Na Europa, entidades ligadas ao setor alertam para a possibilidade de redução da rentabilidade das lavouras, especialmente em áreas com margens mais apertadas. Em alguns casos, produtores já avaliam diminuir aplicações de nutrientes, alterar o mix de culturas ou até deixar áreas sem cultivo.
Na Rússia, representantes do setor agrícola também demonstram preocupação com a disponibilidade e os preços dos fertilizantes, defendendo medidas para garantir o abastecimento interno diante da valorização dos insumos.
Apesar do cenário de cautela, analistas ainda não projetam uma queda significativa na produção mundial de grãos em 2026. Isso porque parte dos fertilizantes necessários para a próxima safra foi adquirida antes da recente escalada dos preços. A expectativa predominante é de ajustes pontuais nas propriedades, com mudanças no manejo, substituição de produtos e busca por culturas menos dependentes de fertilização intensiva.
O comportamento dos fertilizantes nos próximos meses será acompanhado de perto pelo mercado. Caso os preços permaneçam elevados por um período prolongado, os impactos poderão se refletir não apenas nos custos de produção, mas também na oferta global de trigo, milho e cevada, influenciando a dinâmica dos preços agrícolas ao longo da próxima temporada.