Um setor em crise: com hábitos alimentares em transformação e excesso de oferta no mercado, o arroz perde espaço no prato do brasileiro e desafia a sustentabilidade da produção, especialmente no Rio Grande do Sul / Foto: Irga
Nas últimas décadas, o tradicional arroz com feijão — símbolo da mesa brasileira — vem perdendo espaço diante de um país em transformação. Mudanças de hábito, globalização alimentar e novas dinâmicas de mercado estão redesenhando a relação do consumidor com esses dois pilares históricos da dieta nacional. O resultado é um cenário de contrastes: enquanto a produção segue robusta, o consumo interno encolhe e os preços no campo despencam.
O arroz, principal termômetro dessa transição, ilustra bem o desequilíbrio. Dados da Embrapa mostram que o consumo per capita recuou de mais de 40 quilos por habitante em 1985 para cerca de 29 quilos em 2023 — uma queda superior a 25% em quase quatro décadas. Parte desse movimento se explica pela mudança nos padrões alimentares: refeições rápidas, fast-food e ultraprocessados substituem o prato tradicional, especialmente entre as gerações mais jovens e urbanas.
O fenômeno ocorre em meio a um paradoxo econômico. Enquanto o custo da alimentação em casa disparou 55% nos últimos cinco anos — bem acima da inflação acumulada de 33%, segundo o IBGE —, o arroz se desvalorizou. No RS, por exemplo, o preço médio do grão caiu cerca de 25% no primeiro semestre, refletindo o excesso de oferta no mercado.
Essa abundância, porém, pesa sobre o produtor. A combinação de safras cheias e demanda retraída reduziu a rentabilidade, colocando em xeque a sustentabilidade da atividade. O Rio Grande do Sul, responsável pela maior parte do arroz brasileiro, sente com força esse impacto. O Estado enfrenta um quadro de preços abaixo dos custos de produção e perda de competitividade para outras regiões, como Minas Gerais e São Paulo, onde a indústria passou a importar grãos do Paraguai para beneficiamento.
Diante da crise, entidades do setor discutem ajustes. A Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) recomenda a redução da área plantada e reforça campanhas de incentivo ao consumo interno. O presidente da entidade, Denis Nunes, alerta que o enfraquecimento da cadeia do arroz ameaça não apenas a renda do produtor, mas também a segurança alimentar de milhões de brasileiros.
O caso do arroz expõe uma tendência mais ampla: o distanciamento crescente entre o que o país produz e o que a população consome. Num contexto de alimentos industrializados em expansão e renda ainda comprimida, o desafio é revalorizar o básico. Afinal, o arroz e o feijão seguem sendo mais do que alimentos — são parte da identidade e da soberania alimentar do Brasil.
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